sábado, 30 de abril de 2011

Mais de 30 anos depois


Dia 1º de maio, a Igreja verá jubilosa, a beatificação de João Paulo II. E é com júbilo que posto neste espaço, minhas impressões escritas acerca da primeira visita dele ao nosso país. O Brasil foi um dos primeiros países a receber a visita do recém-eleito papa João Paulo II. Um cardeal polonês, com história de vida e formação bem diferentes daquela de seus antecessores italianos.

Ao saber de sua vinda a São Paulo, não descansei enquanto não consegui um lugar numa caravana organizada pela Diocese de Mogi das Cruzes.

Naquele 3 de julho de 1980, saímos bem cedo pois era sabido que o Estádio do Morumbi seria pequeno para acolher a multidão que para lá se deslocava.




Fazia muito frio e choveu o dia todo. O trânsito congestionou na Rodovia Pres Dutra e por conta disso, quando chegamos, encontramos os portões fechados por medida de precaução, pois a multidão que se encontrava do lado de fora era igual ou maior que o público no interior do estádio.





Guiados pelos dirigentes de nossa caravana, fomos desbravando a multidão e conseguimos chegar junto a um dos portões. Dali ouvíamos o canto uníssono que antecedia a entrada do Sumo Pontífice.

Por volta das 16 h, encharcados, gelados, famintos e sem ter conseguido um banheiro, exultamos ao ver-se abrir aquele portão.



Lentamente, conforme orientação dos bombeiros, a multidão começou a mover-se como lava derramada para dentro do estádio ao mesmo tempo em que os que lá estavam, espremiam-se num movimento harmônico nas arquibancadas, abrindo clareiras onde nos acomodávamos.





Como previsto, o estádio excedeu sua lotação e aqueles que não conseguiram entrar, permaneceram do lado de fora imóveis, ouvindo a celebração através do sistema de som.

Binóculos em punho, ali, naquele que foi “O encontro do Papa com os operários”, uni minha voz à da multidão ao som de:

“A bênção João de Deus, nosso povo te abraça,
Tu vens em missão de paz, sê bem-vindo!
Abençoa este povo que te ama ".

O que se passou ali, as personalidades presentes, os discursos, etc... foi documentado e amplamente divulgado pela mídia, não preciso falar, apenas guardar em meu coração e lembrar hoje, quase 31 anos depois, com uma especial saudade.

São Paulo dentre tantas cidades foi, naquela viagem do Papa, uma das poucas que teve o privilégio de acolher e ser abençoada por aquele que seria sem dúvida e apesar das polêmicas, uma das maiores personalidades da humanidade do século XX: Karol Wojtila – o Papa Missionário.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quase ficou sem a foto


Ao digitalizar a lembrança do Crisma me dei conta de que fui crismada no mesmo dia e mês em que casei no civil 24 de junho, sendo que o ano ficou invertido 56 e 65. Achei sugestivo e fui à cata de algo que escrevi sobre o enlace. Mais alguns florais do fundo do baú.

Meu noivo cursava o último ano de faculdade na PUC e trabalhava como encarregado de custos no Eli Lilly do Brasil. Eu começara a lecionar numa escola de emergência do Estado e em maio ainda não havia recebido nenhum salário. Era comum atrasar o pagamento dos professores. Estávamos construindo nossa casa, num loteamento novo ao lado do Autódromo, na Cidade Dutra, assim, era necessário muito jogo de cintura com o orçamento

Meus pais faziam gosto que se fizesse uma festa, pelo menos para receber os parentes próximos e alguns amigos. Eu era a primeira de casa a se casar. Nós queríamos fazer uma viagem. Conhecer um pouco do Paraná e Santa Catarina. Com igreja nada gastamos, pelo contrário, ganhamos muitos presentes, inclusive nossa estadia em Ponta Grossa, para visitar Vila Velha, foi bancada pelo Seminário dos Missionários do Verbo Divino, que tinha dentro da chácara do seminário uma casa de hóspedes.

Festa organizada, passagens compradas – Auto Viação Penha, saindo da antiga Rodoviária com destino a Curitiba, táxi contratado, um Chevrolet preto, de um taxista conhecido, que fez um preço camarada, só faltava o fotógrafo. Um colega da PUC se propôs a documentar o enlace, como presente de casamento. Ótimo!

Casados e retornados de viagem, volta meu marido às aulas e no primeiro dia, recebe a notícia do colega fotógrafo, de que ele esquecera de tirar a tampa da máquina. Portanto: sem fotos. Nós queríamos enforcá-lo, mas não ia resolver nada.

Passados alguns meses, recebemos a visita de um padre, ex colega de seminário de meu marido, que nos traz, um pouco sem jeito, as fotos que tirara do casamento para testar sua máquina.Bem aventuradas fotos, são o único registro da data.


O bolo, cujo modelo estava em moda, foi decorado com uma lira de confeitos que sustentava o andar de cima, onde coloquei um arranjo de flores, pois detestava como ainda detesto aqueles noivinhos. Foi feito por uma boleira famosa aqui no bairro.

Por favor, não riam do meu cabelo, também era assim que se usava e juro, não tinha Bom Bril como recheio, era cabelo mesmo.



Ah, e no convite, não entendo por que, não colocaram o nome do meu sogro, Marcilio Leite da Silva, “in memoriam”, como se faz hoje.


domingo, 24 de abril de 2011

Foi num domingo de Páscoa

Logo que nos mudamos para a Vila Carmen, estava por aqui um cachorro, Dique, que tomou conta da obra, durante a construção da casa. Era um viralata padrão, preto com algumas manchas brancas, muito bravo e por isso vivia preso, o que o deixava cada vez mais bravo.

Odiava todo e qualquer ser vivo que não fosse gente. Diziam que quando pequeno, galinhas e patos roubavam-lhe a comida e quando reagia caíam de bicadas em cima dele. Era um caso para terapia animal ou para o “encantador de cães”.


Se escapava era certo matar alguma galinha, nossa ou da vizinhança. Certa vez atacou o carneiro que o vizinho criava para o Natal, quer dizer, comeu sua fatia adiantado.


No quintal, além das galinhas, tínhamos lebres. Ganhamos um casal e num instante era um rebanho. Viviam num cercado onde de vez em quando de dentro de um buraco que aparecia como por mágica, saíam fofos filhotinhos.


Certo domingo de Páscoa, lá pela década de 50, após festejar os ovinhos de chocolate encontrados nos ninhos preparados na véspera – acreditávamos em Coelho da Páscoa – fomos como de costume para o quintal. A cena era chocante: uma das lebres, um macho, jazia estraçalhado bem em frente à porta da cozinha. Foi a gota d´água para meu avô sacrificar o cachorro. Não sei o que mais nos chocou, se a morte do coelho ou a do cachorro, que apesar de tudo amávamos.


Imagino que para o meu avô, legítimo descendente de suiços, “justo sem miseriórdia”, como me definiu um terapeuta, foi extremamente difícil tomar aquela atitude, e ainda me lembro dele calado, expressão dura na face, enquanto enterrava o pobre animal.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Por conta da Semana Santa

Outro dia falei na dona Meireles, quando escrevi sobre a TV Tupy. Sua casa vizinhava com a nossa, separada apenas por uma cerca de arame farpado. Eram nossos únicos vizinhos proximos. Dona Meireles, o marido e seis filhos, as únicas pessoas com quem convivi diariamente, além da minha própria família, dos quatro aos oito anos, quando entrei para o grupo escolar.








Vila Carmem 1948





Esta parte da Vila Carmen era um grande descampado onde brincávamos e brigávamos livres, leves e soltos. A diferença de idade era grande entre os filhos mais velhos de dona Meireles e nós, assim, tínhamos nas moças uma epécie de tias, como se diria hoje. A Quita, a mais velha, aprendeu corte e costura e fazia de mim sua cobaia nos primeiros modelitos, o que era muito bom. Mais tarde, por ocasião do meu Crisma, pediu à minha mãe para ser minha madrinha. Foi uma grande alegria. Ainda hoje, quando possível nos visitamos.





Lembrança do meu Crisma – 24 de junho de 1956





Quando chegava a Semana Santa, toda a família de dona Meireles – filha de portugueses muito católicos – participava da procissão do Senhor Morto na Sexta Feira Santa e, sempre me convidavam para acompanhá-los.

Não era acostumada a sair de casa, muito menos à noite – muito escura sem a iluminação pública – assim, era uma sensação estranha, estar ali, no imenso cortejo, naquele tempo as procissões eram muito concorridas, segurando a vela acesa protegida por um aparador de papel, ouvindo os cantos solenes e acompanhando a Via Sacra do Senhor, até sua morte, e morte de cruz.



Na estação em que a Verônica enxuga o rosto de Jesus e entoa seu canto pungido de dor, era uma soprano do coro que a representava, tudo parava e acho que eu ficava até de boca aberta, atenta, sem entender nada, mas gostando muito. Na volta, vendo o Senhor morto no andor, todo ensanguentado, sentia até certo medo.



Sexta feira, dia 15, como faço em todos os anos, participei e fotografei para o site e informativo da paróquia , uma das Vias Sacras que percorrem as ruas do bairro, durante a Quaresma e, passando pelas mesmas ruas, hoje muito diferentes, pensava na infância, na religiosidade do povo do bairro, na procissão com alguns quarteirões de comprimento e me perguntava: será que não é isso que falta neste mundo com tão pouco calor humano, onde os vizinhos mal se conhecem e a vida, por necessidade ou opção, nada mais é do que uma busca desenfreada pelo ter?






Via Sacra nas ruas do Brooklin 15 de abri de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Como não lembrar?



Recebi por email a imagem ao lado, com a recomendação do remetente, Carlos Lotito, dono do site Bonapetite & Cia, “finja que não lembra”. Como não lembrar se não tínhamos aparelho de TV, um luxo na época, e pegávamos carona na televizinha, a dona Meireles, bondade em pessoa, que não podia deixar as meninas da dona Maria sem ver o Cirquinho do Arrelia aos domingos e as lutas livres da Record nas noites de sábado?


Como não lembrar, se “recordar é viver”, se conheci ao vivo e em cores alguns personagens daquela época e ainda há pouco, não mais que um ano, acompanhei os últimos dias de vida do Dino, um dos lutadores contemporâneo do Ted Boy Marino, Fanthomas, Indio? Últimos sofridos e solitários dias...


Se assisti ao Repórter Esso bem mais tarde e lembrei do meu avô colado ao rádio ouvindo as últimas notícias da Guerra na Coréia do mesmo noticiário na versão radiofônica? Se a melhor novela que assisti foi "Beto Rockfeller", na PRF3 TV Tupy? Não assisto novelas há décadas, considero desperdício de tempo, como aliás considero também a maioria da programação televisiva .


Se ainda tenho gravada na memória a imagem de meus filhos espalhados pelo tapete da ampla sala, em Mogi das Cruzes, assistindo Speed Racer, Ultraman e Ultraseven, cujo tema musical de abertura as crianças cantavam em japonês? Como fingir que não lembro?


Como não lembrar se morei no mesmo prédio que Jane Batista, garota propaganda da PRF3 – TV Tupy, “a bonequinha do Brasil”, contemporânea de Clarice Amaral e Neide Alexandre? Dividia com ela a garagem do condomínio e sempre uma de nós tinha que tirar o carro pra outra sair. Ela era então assessora de imprensa de um deputado, trabalhava na Assembléia e colaborava com um jornal de bairro. Seu nome verdadeiro era outro, não vou contar. O carro, um fusquinha branco, amassado de todos os lados era a vítima em potencial de todos os motoristas “barbeiros” da cidade.


Faça-me o favor Lotito, não peça para fazer de conta que não lembro! Se revelar ou melhor assumir a idade é o preço que devo pagar por não concordar com você, faço-o com gosto, com a satisfação de ter vivido em São Paulo , o nascimento da primeira rede de televisão não só do Brasil , mas da América Latina. Pago o preço e agradeço por ter me proporcionado neste final de Domingo de Ramos a possibilidade de tantas e gratas lembranças. Obrigada!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Doce de cidra

Há cerca de um mês, estive numa pequena cidade do interior, uma cidade de primeira - quer dizer, você engata a primeira e quando passa para segunda já saiu da cidade – e, num desses mercadinhos onde se encontra de tudo, entre as iguarias da vitrine lá estava o tão desejado doce de cidra, que há muito não via. Desejado, na verdade, pelo meu pai. Comprei, ele matou a vontade e eu viajei no tempo. No quintal da casa da minha avó Deolinda tinha um pé de cidra. Para os mais novos explico: o que chamamos de cidra (não sidra) é um tipo de limão verde escuro, que não serve para nada a não ser para fazer doces e compotas com a casca. E dá um trabalho! Mas minha avó fazia, para delícia dos filhos e netos.




Primeiro retira-se o bagaço da fruta, quer dizer, a parte que tem os gomos. Corta-se a casca com a polpa agregada e coloca-se de molho em água fria, que deve ser trocada diariamente, por uma semana aproximadamente, até a fruta perder o amargo. Daí, podemos fazer a cidra em calda, cristalizada ou a compota com ela ralada.




O doce de cidra que compramos era em formato de bolinhas, quer dizer, foi feita a compota bem apurada, até açucarar, enrolaram os docinhos e deixaram secar – os antigos secavam ao sol. O modus operandi é o mesmo para doce de abóbora, batata doce, cocada...



Voltando ao quintal, ali havia também um pé de lima da Pérsia, que dizem ter propriedades medicinais e um pé de araçá, ah, esse sim, a nossa alegria. Quem nunca comeu araçá não sabe o gosto da infância, da liberdade de um quintal grande cheio de plantas e bichos, da magia de brincar com argila tirada do barranco do rio.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eu e o censo de 1970


Em 1971, professora efetiva lecionando na E.E. Prof. Antonio Olegário dos Santos Cardoso, no Bairro Adachi em Mogi das Cruzes, fui convidada a participar do censo agropecuário, em continuidade ao recenseamento de 1970. Tudo era novo, morar em outra cidade, trabalhar na área rural, ter meu primeiro carro, um fusquinha 66 azul e agora participar desse trabalho junto ao IBGE local.


Participei do treinamento e recebi a área na qual deveria visitar as propriedades rurais para preencher os formulários daquele censo – 43 propriedades perdidas em meio a resquícios de Mata Atlântica nos confins de Mogi das Cruzes divisa com Biritiba Ussú – no trajeto da atual Rodovia Mogi-Bertioga. A quase totalidade das propriedades pertencia a japoneses, muitos que não entendiam o português e outros que por conveniência fingiam não entender por medo de se complicar junto ao fisco com suas declarações. Aprendi algumas palavras chave: ocanê=dinheiro; nambo=quanto; nomes de frutas, das quais só lembro momô=pêssego; a contar pelo menos até mil; laços de parentesco; etc. Só sei que deu tudo certo.



Fiz um rápido curso de mecânica VW, recebi diploma e luvas brancas. Estaria completamente só em meio a grandes áreas desertas. Sabia trocar pneus, mexer no carburador, verificar o óleo, limpar as velas, o platinado outras coisas que não me lembro mais. De tudo que aprendi, só necessitei trocar pneus e esfriar a bomba de gasolina certa vez. O que não me ensinaram, mas, me saí bem, foi quando em meio ao nada, atolei num lamaçal. Quanto mais tentava sair, mais afundava a roda traseira. A probabilidade de passar alguém por ali era quase nula. As propriedades eram auto-suficientes e só de vez em quando alguém ia à cidade. Como nos filmes, saí recolhendo tocos de árvores e pedras e fui enfiando embaixo da roda atolada e das outras. Andava alguns centímetros e transpunha os entulhos para frente das rodas novamente. Gastei quase a tarde toda, fiquei coberta de lama, mas consegui. Daquele dia em diante, não passava nem em pingo d’água.



Certo dia ao embicar o carro em direção à porteira de uma propriedade bem cercada, fui recebida por um jovem japonês e sua espingarda de dois canos apontada para mim. Depois de muita explicação, fui atendida, eu do lado de fora e ele dentro. Preenchi os questionários sob a mira do olhar desconfiado do moço e de olho na espingarda que não sossegava em suas mãos. De cachorros, nem sei quantas vezes corri, até aprender a buzinar e esperar dentro do carro que alguém aparecesse e prendesse as feras.



A colonização japonesa de Mogi se fez a partir de pequenas propriedades, de dois a quatro alqueires paulistas, o equivalente a 24.000 m2 cada. Eram granjas de criação de galinhas e frangos, para postura e abate, chácaras de frutas, em geral pêssego, caqui, ponkam, goiaba, uva Itália e hortaliças: alface, batata e cenoura. Nas minhas andanças encontrei uma família italiana. Moravam numa casa inacabada, guardada por belos pastores alemães, detentores de muitos prêmios como pude ver em uma estante. Plantavam verduras e legumes para o próprio consumo, criavam cabras para leite e carne, e, como atividade remunerada, criavam coelhos para vender recém nascidos, aos quilos, para experiências científicas no Instituto Biológico de São Paulo. Uma atividade interessante que merece um capítulo à parte, bem como a família, que sem o saber, naquele momento, o chefe era colega de trabalho do meu marido na Elgin Máquinas de Costura. Essa foi minha melhor entrevista durante o censo, claro, acompanhada do bom café de cafeteira italiana.



Visitei duas propriedades de chineses e numa delas passei uma saia justa, com um jovem, que creio não era muito certo da cabeça, que ali, em meio às perguntas do formulário perguntou se eu queria casar com ele. Eu que já estava quase na porteira, me pus do lado de fora rapidamente e encerrei a entrevista inventando os dados que faltavam. Sinto muito!



Ganhei algum dinheiro, aprendi muita coisa, conheci pessoas interessantes, lavradores japoneses, lavradores nisseis com nível universitário, tanto homens quanto mulheres com as mãos rachadas e manchadas pelos agrotóxicos, artistas plásticos perdidos naquelas propriedades rurais produzindo maravilhosamente sua arte, ganhei frutos do trabalho daquela gente que durante o censo abasteceram minha casa, encantei-me com os grandes galpões de plástico transparente erguidos para o cultivo da rosa vermelha cabo longo, para exportação e surpreendi-me com o modo como são cultivados os champignons, com expressiva produção em Mogi, em longos e estreitos barracões de pau a pique, cobertos de sapé com minúsculas janelas bloqueadas por retalhos de tecido, para cortar a luz, mas permitir a ventilação, e lá dentro, prateleiras em toda a extensão cobertas de esterco de galinhas onde são injetados os esporos que dão origem à deliciosa iguaria. Ali, o calor e o cheiro eram insuportáveis.



O censo agropecuário do IBGE de 1970, levado a efeito em 1971 em Mogi das Cruzes, foi para mim, uma experiência enriquecedora e inesquecível, que trago na minha bagagem de urbanóide paulistana.

domingo, 10 de abril de 2011

O que faremos com a boa e velha Singer?

“Ah se esta máquina falasse, quanta história teria para contar!”.


Ela chegou em casa num dos últimos dias do mês de abril ou comecinho de maio de 1949. Morávamos em Indianópolis, na Avenida Macuco. Minha irmã tinha acabado de nascer, no dia 26 de abril e eu, com quase 4 anos passava por uma crise de ciúme por conta do lindo bebê que agora roubava de mim, parte da atenção, até então exclusiva, de minha mãe.




Era sábado e meu pai levou-me para um longo e desastroso passeio de bicicleta para os lados da Vila Nova Conceição. Depois de andarmos muito, passamos sobre uma ponte e foi ali que aquilo aconteceu. Sentada no “bagageiro”, num descuido e encostei meu pé na roda em movimento. Imediatamente ele se enroscou nos raios e freou bruscamente a bicicleta ao mesmo tempo em que comecei a gritar. Os ferros haviam arrancado o couro da lateral interna do meu pé e ele sangrava abundantemente.


Meu pai tentou me acalmar e, sem alternativa levou-me de volta para casa, onde minha mãe estava no corre-corre com o bebê. Logo na entrada da sala, ali estava ela: a tão esperada máquina de costura comprada na Sears do Paraíso e que acabava de ser entregue. À vista daquela novidade até a dor diminuiu.





Quanta roupinha fiz para minhas bonecas, quando lá pelos 8 ou 9 anos já mexia na máquina. Com retalhos de helanca vindos da Fábrica de Maiôs Jantsen, que ficava no mesmo quarteirão da Fiação Campo Belo, criava sem saber os nomes, “colants”, “fusôs” e “bustiers” para minhas “filhas”. Fiz até um vestidinho para o gato e ia com ele no colo, vestido de menina, esperar minha irmã na porta do GE Mario de Andrade. Ele fazia um sucesso danado na porta daquela escola.



Nessa máquina minha mãe fazia toda nossa roupa quando crianças e depois, cada uma de nós fazia as suas. Costurei minhas roupas, no tempo em que se usavam combinação e saiotes bem rodados e engomados, de algodão. Fiz meus uniformes do magistério e boa parte de meu enxoval. Apesar de seus 62 anos, está bem conservada e cumprindo com suas funções plenamente. Já a Sears, de onde ela veio, não existe mais, deu lugar ao Shopping Paulista.



Quem será que vai ficar com a boa e velha Singer?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um velho cartaz



No subtítulo deste blog defini meu intuito, mas nunca imaginei ir tão ao fundo do baú como nestes últimos dias.

Minha mãe amorosa e sentimental, sempre guardou tudo. Por issos e por aquilos ela acumulava lembrancinhas de casamentos, batizados, aniversários diversos; papéis e laçarotes dos presente que ganhava, envelopinhos; quinquilharias do tipo: “estive em... e lembrei-me de você”; presentes que ganhou pelos dias das mães, dos tempos de nossa infância, acho que ainda estão todos aqui.

Era dela, devia ser respeitado e não questionado, mesmo quando já não tinha consciência de seus guardados. De tudo, as únicas coisas de que não esqueceu foram, a coleção de moedas, uma preciosidade e a sala de jantar com o jogo completo de cristal para bebidas, ambos adquiridos da tia Ruth, irmã do meu avô paterno.

Nesta semana, em mais uma de minhas arrumações, encontrei entre os velhos papéis de presente, cujo calhamaço nunca abri nestes mais de seis anos que aqui estou, um cartaz onde se lê um trecho de "El Viejo y la Vida" de Enrico Carta, que, no momento e condições em que me encontro, colocou-me em xeque. Parei o que fazia, aliás, nem lembro mais porque fui mexer naqueles papéis, num profundo exame de consciência, muito apropriado neste tempo quaresmal, e, humana como sou, relacionei mais alguns pecados para expor ao confessor.

Não sei de quem ela ganhou o cartaz, que está um pouco amassado e vou transformar em quadro. Vou perguntar às minhas irmãs, só sei que o achado caiu em minhas mãos no momento certo, em tempo de refletir sobre minha conduta, como cuidadora que ainda sou, do meu pai, com seus noventa e um anos e um temperamento extremamente complicado.

Obrigada mãe, por guardar tudo!

"El Viejo y la Vida"

Enrico Carta

Benditos aquellos que comprenden

que mis manos tiemblan y mi caminar es cansino!

Benditos aquellos que hablan en voz alta

para no subrayar que mi oido es duro.

Bendito el que no hace pesar mi torpeza en la mesa.

Bendito quien no me hace faltar

su sonrisa o una palabra gentil.

Benditos aquellos que me escuchan

cuando tal vez estoy repitiendo cosas ya dichas

o no me canso de volver a contar los hechos

de mi lejana juventud.

Bendito quien me demuestra afecto y me respeta.

Bendito quien quita las espinas de mi camino

hacia la casa del Padre.

Benditos aquellos cuya bondad hacia mi,

me hace pensar en el buen Dios.

Cuando pase el umbral de la vida sin fin,

me recordaré de ellos ante el Señor.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Avenida Macuco 1946





Meu pai em convalescença do tifo, adquirido num mergulho no Rio Pinheiros lá para os lados da Chácara Santo Antonio, onde só havia portos de areia, cuida para que eu não despenque do cadeirão enquanto minha mãe faz a foto. Do outro lado da rua, duas casas típicas da época, rentes à rua.





Uma delas era a barbearia onde pela primeira vez meus cabelos foram cortados, isso, muito tempo depois, aí nem os tinha. Daquela feita, ao ver o barbeiro com a tesoura em punho, tapei as orelhas com as mãos e pus-me a gritar com medo que ele cortasse os meus brincos. Escrevendo isso agora tomo consciência de que amor aos brincos é uma característica que me acompanha. Não uso maquiagem, não pinto os cabelos, na verdade sou bem relaxada quando se trata de vaidade, mas nunca saio de casa sem brincos, é como se faltasse uma peça de roupa.




Foi nessa rua, em Moema, que até meus 4 anos e meio, morei numa casa de fundos. Nossos senhorios eram os irmãos Crêem já idosos: João, funcionário administrativo da Light, Leonor organista da igreja Metodista, Amélia dona de casa e Mário, professor primário aposentado e pastor Metodista, que eu chamava de avô. Vivia comigo nos ombros, contando histórias e ensinando-me hinos evangélicos. Todos os dias colocava-me sobre o muro que nos separava da chácara de verduras e cabras e durante horas conversava com o proprietário, seu José, um português de meia idade, muito simpático, que assim que me via exclamava: “Bom dia rica menina, como estás?” Eu gostava tanto do jeito dele falar, que logo só falava o português de Portugal, para desgosto da minha mãe.




Aos domingos ia com meu pai à confeitaria alemã do seu Estegman, na Avenida Jandira, ao lado da Casa Eurico de calçados. Comia uma bomba de chocolate e toda lambuzada ia ver o tanque de carpas vermelhas da Indústria Aço Brasil, na Macuco esquina com a linha do bonde, depois visitava a loja do Ernesto Cinquetti, parente distante da Gigliola e candidato a vereador. Cinquetti, muito bom, ajudava a todos. Foi ele que pagou o lotação para meu pai, desempregado, trazer da Maternidade São Paulo, na Frei Caneca, minha mãe e eu, naquele difícil ano de 1945.




Outra parada era na farmácia do seu Domiciano, um farmacêutico prático, curandeiro de todos nós. Foi ele que me furou as orelhas e colocou meu primeiro par de brincos –isso não posso esquecer! No quintal de nossa casa, moravam também dona Etelvina e seu filho Titico, que nas horas vagas tocava bandolim para mim.




Bem próximo, na Rua Arapanés, moravam meus avós, meu tio, a dona Tegna, uma judia que jogava no bicho todos os dias e tricotava luvas de linha finíssima, enquanto conversava com vovó. Havia também a dona Maria, enfermeira e massagista cujo filho suicidou-se e seu Dário, dono do armazém, que vendia fiado, “na caderneta”.




A Aço Brasil consumiu-se em um incêndio, acho que em 1948. A Casa Eurico ainda está lá, no mesmo lugar, vendendo calçados de tamanhos especiais, do Cinquetti, fui professora de uma sobrinha neta em 1988 e exceto meu pai, todos os outros já faleceram. Aquele pedacinho da cidade com seus moradores amigos e solidários era o mundo que eu conhecia a parte da história de São Paulo que eu vivi que posso e devo compartilhar, sem saudosismo!



Na foto meu pai na Rua Arapanés em frente ao bar na esquina com Macuco. (O bar ainda existe)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Peixe fora d’água

Preciso ir a Natal – RN, visitar meus netos que há muito não vejo. Mais uma vez irei enfrentar o sufoco do pânico de entrar em um avião. Não adianta, não consigo superar. E mais uma vez sai lá do fundo do baú, as peripécias da primeira viagem aérea, quando,em agosto de 1988, ganhamos, meu marido e eu, uma estadia de 7 dias, com tudo pago no Clube Mediterranée de Itaparica, BA.



Marinheira de primeira viagem guardava as imagens das revistas antigas, quando ainda lia revistas, onde nas propagandas das companhias aéreas ou em reportagens, apareciam mulheres chiquérrimas, de chapéu e luvas. Também minhas primas, da família de um comandante, eram pessoas muito finas que se vestiam nos melhores ateliês de São Paulo.



Assim, lá fui eu, num vôo para Salvador – o avião, não sei o modelo, mas era da Trans Brasil e não muito grande – numa manhã de calor extremo, toda vestida de seda, com direito a meias e sapatos altíssimos (ainda os usava naquela época). Logo ao me acomodar pude perceber que era um peixe fora d’água.



Encolhida na poltrona, suando frio de pavor, com a cabeça a aumentar e diminuir de volume a cada oscilação do vôo, via circular pelo corredor, depois do lanche servido, homens, mulheres e crianças de bermudas, calças jeans, camisetas, tops, tênis e até havaianas. Não só circulavam pelo avião, dando-me a impressão de que faziam a aeronave trepidar, como deixavam pelo chão copos descartáveis e guardanapos de papel, que ao chegarmos a Salvador sentíamo-nos como num final de feira.




No aeroporto, GOs nos aguardavam com bandeirolas com nosso nome e a indicação do veículo para seguir até a balsa. A balsa. Aí a coisa ficou cômica, para não dizer trágica. Éramos um pequeno grupo, nós os únicos brasileiros mais alguns franceses e americanos muito brancos, que se protegiam do sol escaldante do meio dia. Também eu, era confundida com eles e a eles me reunia na busca de uma sombra, vestida com estava.



Naquela imensa balsa, lotada de nativos em busca do sonhado final de semana na ilha - era sábado - nosso grupo de branquelos vestidos inadequadamente destacava-se em meio à multidão de corpos negros, sarados, com sungas, biquínis e fio dental. Eles viajavam em alegres grupos, batucando, tocando berimbaus, cantando e dançando e é claro, de vez em quando davam uma olhadinha matreira para o nosso lado, imaginando, sabe-se lá, de qual planeta teriam saído aqueles ETs.



Foi muito bom conhecer a Bahia, visitar Salvador, o Pelourinho, as belas praias e especialmente a Ilha de Itaparica com o magnífico clube da rede Mediterranée e seus GOs, sempre atentos e prestativos, empenhados em nos fazer felizes naquele cenário paradisíaco, mas voltei daquelas férias me perguntando de onde havia tirado a idéia, de que nos dias atuais, haveria glamour num vôo econômico que cruza os céus deste “patropi”.