sábado, 29 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo!!


Dentro de alguns dias, um Ano Novo vai chegar a esta estação. Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro. Procure um lugar próximo à janela e desfrute cada uma das paisagens que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.

Não se assuste com os abismos, nem com as curvas que não lhe deixam ver os caminhos que estão por vir.

Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho, beirais de estrada e tons mutantes de paisagem. Desdobre o mapa e planeje roteiros. Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento ao apito da partida. E quando decidir descer na estação onde a esperança lhe acenou não hesite. Desembarque nela os seus sonhos...


 Desejo que a sua viagem pelos dias do próximo ano, seja de PRIMEIRA CLASSE. Lembre-se, para que você tenha um ótimo Ano Novo, você não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar pelas besteiras que fez e falou durante o ano que está se findando. Nem acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro, as coisas mudem e tudo seja claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, a começar pelo maravilhoso direito de viver.


Mas que para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você tem de merecê-lo, tem que fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, faça com que seu 2013 seja diferente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Que o seu 2013 seja, 2013 vezes melhor do que 2012.
                                                                                                                             (Desconheço o autor)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Música sob a minha janela

Outra lembrança marcante de natais de um passado mais recente transporta-me a 1984, quando decididos a retornar a capital por força do trabalho, iniciamos a busca por um imóvel onde coubesse a família e que coubesse no orçamento familiar. Uma combinação nem sempre fácil de alcançar. Mas para cá viemos, e dá-lhe busca!

Estávamos nesse afã, quando em certo sábado do mês de dezembro, depois de visitar alguns imóveis fomos parar em um restaurante na Alameda Santos esquina com Joaquim Eugenio de Lima. Ficava no térreo de um edifício residencial e oferecia boa comida por bom preço.

Almoçávamos meu marido e eu, quando o alegre som de uma banda vai crescendo e invadindo o ambiente. Quatro senhores idosos, com seus instrumentos reluzentes, dos quais me lembro do trombone, do pistão de vara e da marcação de um bumbo, passavam de mesa em mesa, entoavam tradicionais canções natalinas com animação e após os aplausos e alguns trocados lá se foram pela rua sumindo aos poucos junto com sua música.

Depois que nos mudamos, por muitos finais de ano os vi passarem pelas ruas do Paraíso e muitas vezes, fiquei debruçada na janela do apartamento, onde coube a família e que coube no orçamento familiar, apreciando aquele concerto singelo.

Já acostumados, paravam sob minha janela tocando até que lhes jogava uma “caixinha”. Tornaram-se para mim os anjos da anunciação da chegada da até então, mais esperada festa do ano.

Tempos depois, cuidava de meus pais já há algum tempo, portanto foi após 2004, passando pela região do Paraíso, deparei-me com um deles, mal conseguindo suportar o peso do instrumento, tirando acordes tristes como ele mesmo, cambaleando em meio ao corre das gentes, no anoitecer de sexta feira, molhada pelas lágrimas frias da natureza que por certo como eu chorava diante da melancólica figura do músico solitário.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Chega dezembro e com ele boas lembranças


Na adolescência passei a participar mais assiduamente das festividades na Igreja do Sagrado Coração. Naquela época, o ciclo natalino era vivenciado intensamente e a liturgia da data muito bem elaborada.



Lembro-me dos ensaios onde jovens Marianos, Filhas de Maria, Legionários de Maria e Catequistas reuniam-se, para, sob a batuta do professor Ari, e orientação do vigário, Padre Ângelo Gianola, ensaiar o “Adeste Fideles” em latim além da tradicional Noite Feliz e do “Exultai ó filha de Sião”, ensinada pelo próprio vigário italiano, que às escondidas imitávamos: "Ecsulllltai ô filia de Sion o senhorrrr chegarrrá!”.

À meia noite do dia 24 de dezembro a Missa do Galo era solene. Toda a comunidade atuante presente. No altar, padres do PIME e convidados, acólitos, coroinhas e o senhor Emílio Toscani, príncipe italiano, já idoso, cuidando do cerimonial com austeridade.

A igreja lotada. Além das pessoas que sempre frequentavam as cerimônias, nessa noite ali se encontravam aquelas que só iam à igreja para as missas nas datas festivas, a maioria com roupas novas e perfumadas, cujo olor, misturado ao do incenso e ao ar da noite, produzia um aroma característico que com aquele, das castanhas cozinhando, emergem das minhas lembranças como “cheiros de Natal”.

E nada melhor do que caminhar rumo ao Natal com  este ADESTE FIDELES 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Do Artur para o Vô Velho


Ele era eterno, na verdade ele é, pois ninguém deixa de ser eterno.

Desde que me lembro ele estava lá, assim como a maioria, mas com ele era diferente. Era uma coisa meio pai, avô, tio a até irmão. Era Vô Velho... Quando penso nele as mesmas coisas tomam lugar na minha mente... o futebol com a bolinha de tênis de todo domingo, as histórias de trabalho, as infinitas perguntas de como vão os estudos, o que você vai fazer.

As últimas lembranças que tenho são as que mais definem ele. Nas últimas cinco vezes que o encontrei, a primeira pergunta foi a mesma, e aí como vai ser lá no Mato Grosso... - Vai ser bom vô, vai dar tudo certo, lé é bom...

Todas as vezes quis prometer que o levaria para pescar no pantanal, coisa que adorava, mas jamais prometeria a um grande amigo algo que sabia que não iria cumprir.

Sempre me perguntava como estava a Cynthia, pois acho que de tanto tentarmos ensiná-lo como se pronunciava e por causa da simpatia que não posso negar que a moça tem, ele queria falar o nome dela... - Tá bem vô, tá estudando, fazendo mestrado, depois vai fazer doutorado e virar professora, igual a Sid...

Nesse momento ele batia palmas e sorria, pois sem dúvida, para ele, o estudo era algo fascinante, talvez porque não o tivera. Mas nem precisava, sabia de quase tudo um pouco, e mais importante do que tudo, apesar dos eventuais erros que cometera com sua esposa e filhas, tinha caráter.

Me cumprimentava com um coquinho... sempre!!! Esse coquinho ficou famoso até em Viçosa quando um amigo teve a oportunidade de conhecer o seu Walter. Quando chegávamos a sua casa, meus irmãos e eu, fazíamos fila para o coquinho do vô. O último coquinho foi exatamente há uma semana, quando a trabalho, fui à São Paulo e passei lá para dar um oi. Dessa vez, quem deu o coquinho fui eu, pois ele já não tinha forças para levantar da cama.

A morte é inevitável e para ele foi um alívio. Me orgulho muito pois sei que lhe dei alegrias, assim como me deu muitas. E como não podia ser diferente, o coquinho do primeiro bisneto foi o último que ele deu antes de nos deixar.

Vô Velho, o Sr. estará pra sempre comigo, onde quer que eu vá... e pode ficar tranquilo que vai dar tudo certo, eu não disse?

domingo, 28 de outubro de 2012

Agora somos verdadeiramente órfâs


Meu pai faleceu sábado, dia 27 de outubro, depois de 88 dias nas garras de uma complicação pulmonar contra a qual lutou bravamente até a exaustão, quando seu coração de 92 anos, 9 meses e 22 dias não resistiu mais.

Homem rude e simples, temperamento forte herdado dos ancestrais germânicos e coração generoso onde circulava o sangue lusitano, viveu para o trabalho e a família e entre acertos e erros, apesar das dificuldades financeiras advindas de sua condição de operário metalúrgico criou e formou as três filhas até o ponto de alçarem voo com as próprias asas. 

Entre o trabalho assalariado até a aposentadoria e mais os anos de serviços prestados como consertador de fogões, chegou trabalhando ativamente até os 84 anos, quando um AVC lhe impôs o primeiro limite e ele descobriu que nem sempre estaria no comando das rédeas da vida. O primeiro baque. 

Nos oito anos que se seguiram tentou diuturnamente provar que não era um inútil, como na verdade se sentia, e sempre estava à cata se serviços, nem sempre condizentes com sua situação frágil. 
Superou um carcinoma no maxilar em 1991 e suportou durante os últimos quatro anos a lancinante dor da degeneração do nervo trigêmeo e até o último momento de consciência não aceitou a cruel, porém natural realidade da decrepitude. 

Não tinha escola mas não lhe faltavam conhecimentos, não tinha religião, mas acreditava em uma força superior acima de todas as coisas. Amava e respeitava profundamente a natureza. Gostava de pescar, ouvir valsas vienenses e tocar sua gaita alemã, que o acompanhou na internação, divertindo aqueles que o assistiam. 

Seu desgosto na vida, foi não ter tido um filho homem, mas não perdia a chance de dizer que suas filhas eram as melhores do mundo. 

Suas últimas palavras dirigidas a mim no leito de morte foram: “me dá um gole de água mãezinha”, gole tornado em gotas, que não saciou sua sede, mas aliviou meu coração ao vê-lo confundir-me com a figura de “mãe”, bem como minha mãe o fez em seus últimos anos. 

Agora somos órfãs, como disse minha querida irmã Sid diante daquele corpo à nossa frente, pela primeira vez em nossas vidas, totalmente em estado de repouso. 

Que a luz perpétua brilhe sobre o senhor, meu pai e que Deus lhe dê a paz que tanto buscou nesta vida terrena. 


Walter Walder:  05/01/1920 - 27/10/2012

Não encontramos palavras para agradecer a todos que nos confortaram durante este período difícil de nossas vidas e àqueles que o farão ao se inteirarem do ocorrido. Só Deus poderá recompensá-los.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dia do médico - Uma homenagem póstuma.

Deveria homenagear diversos doutores em medicina, que passaram pela minha vida com competência e humanidade, mas serei injusta se relacionar nomes, pois sempre alguém será esquecido. Assim agradeço pessoalmente a cada um dos abnegados que nos atendem e pensando em todos, homenageio postumamente, um, em especial, por ter sido realmente muito especial.

Doutor Roberto Brólio, que  foi e sempre será o médico de família por excelência. Ainda jovem, por volta de 1947/48, realizou o complicado parto de minha tia-avó Ruth e a partir de então passou a atender a família Walder.

Na década de 60, quando meu avô debilitado pelo mal de Parkinson já não saía de casa, Dr Brólio o visitava, tratava-o com dedicação e por tabela consultava filhos, genros, noras e netos cobrando apenas o valor de uma consulta ao preço do consultório.

De origem humilde, formou-se na Faculdade de Medicina da USP. Era clínico geral, pneumologista, alopata e homeopata de acordo com a necessidade. Seu primeiro consultório localizava-se num conjunto modesto, na Praça da Sé, de onde saiu quando a região central de SP começou a deteriorar-se. Mudou-se então para o Itaim Bibi, onde esteve primeiro na rua Viradouro e posteriormente na rua Urussuí, onde ficou até encerrar suas atividades. Lecionou também no Curso Normal do Colégio Caetano de Campos.

Espiritualista sério e fervoroso, membro da Federação Espírita de SP e voluntário na Casa Transitória, exercia a medicina como um sacerdócio. Foi professor na Escola Paulista de Medicina e médico do Hospital das Clínicas até se aposentar. Bondoso, paciente, atualizado, profundamente conhecedor da natureza humana, recebia a todos em seu consultório com um abraço e os tratava de “queridos”. Aos mais aflitos consolava com sua famosa frase:

- Calma querido (a), daqui a 50 anos todos os seus males estarão curados.

 Nas consultas, sempre muito demoradas, tratava cada paciente como se fosse o único, preocupando-se com o corpo e a alma e não se importando com a sala de espera sempre lotada de clientes pagantes e não pagantes, que aguardavam pacientemente a sua vez. Sabiam que a espera seria recompensada e que ao atravessar aquela porta, a cura já começaria a se operar.

Dr Brólio também era escritor, escreveu entre outros, o livro “As doenças da Alma”.

Estive em seu consultório pela última vez em 1999, com minha mãe. Ele a consultou e em seguida conversou longamente comigo. Não foi uma conversa, mas um monólogo, somente ele falava. Em certo momento olhou-me profundamente nos olhos e disse: “Sua mãe está bem, você é que deve orar para ser forte, pois momentos difíceis a aguardam”. Meses depois, meu filho faleceu.

Foto de 1962, encontrada em http://ieccmemorias.wordpress.com/page/113/

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

“No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via...”

Não sei a quantas anda o Hospital do Servidor Público do Estado, a única vez que me utilizei dele, além do ambulatório, foi em 1995, numa situação de emergência e sem cobertura de um plano de saúde e fui muito bem atendida por um jovem residente de cabelos ruivos, que logo detectou o problema, pediu exames urgentes e me internou para cirurgia. E aí é que começa o sufoco.

Numa enfermaria de quatro leitos, na ala em reforma, logo descobri que do banheiro restava apenas o contra piso rústico e alagado pelo vazamento do vaso sanitário. Cheirava mal, mas tinha uma grande vantagem: era o único na ala que tinha água quente no chuveiro o que levava a uma desvantagem: todas as pacientes da ala vinham tomar banho ali, num entra e sai interminável.

Meu estado era grave (estava com mioma no útero e tinha hemorragia contínua), mas tinha um consolo: não morreria só. Além do movimento do banheiro, à noite, graças a uma gentil colega de quarto, este atingia sua lotação máxima. Pacientes de outros quartos e faxineiras. compareciam para o capítulo inédito da novela da Globo. Sentadas em nossas camas, apoiadas em suas vassouras e rodos, comentavam animadamente o desenrolar da trama. Só faltava a pipoca com guaraná.

Quanto à faxina, minha irmã providenciou o material necessário para que eu, embora conectada ao soro, providenciasse a desinfecção do banheiro.

Exames, vários dias de jejum, muita medicação e nenhum resultado, um belo dia, decidiram por transfusão de sangue e cirurgia imediata.

Chamei o capelão do hospital e pedi a Unção dos Enfermos para salvar a alma, o corpo já considerava perdido.

À tarde o Centro Cirúrgico vagou, bem na hora da visita. O hospital parecia um shopping center em véspera de Natal e em meio ao entra e sai, com jejum de quatro dias, sou conduzida por uma enfermeira, sem cadeira de rodas nem maca, vestida com um modelito nada pudico e carregando o pesado suporte de ferro do soro e, diante da perplexidade da minha filha, começo o desfile por aquele longo corredor repleto de transeuntes, quando uma hemorragia me obriga a parar.

Aos gritos de minha filha, uma cadeira de rodas aparece, jogam um lençol sobre a mim,  e, aos prantos dou entrada no CC, sob os olhares de reprovação do grupo de residentes que aguardavam para assistir a função e antes de subir na mesa de cirurgia, sem ajuda, ainda ouço o comentário de uma das mocinhas: “chorona, só porque é paparicada pela família, fica fazendo manha”.

A sala de cirurgia improvisada, compunha-se de mesa, alguns aparelhos, um balcão tipo pia do meu lado esquerdo, onde jaziam à minha espera dois frascos de sangue e do lado direito, prateleiras repletas de aparelhos de TV, vídeo, equipamentos e caixas empoeiradas.

Em um canto o grupo, uns quatro ou cinco, conversava animadamente, enquanto dois jovens simpáticos cuidavam da anestesia, que segundo eles seria um procedimento digno do hospital A. Einstein.

Anestesia raquidiana, pois o hospital não dispunha de peridural, como constataram na hora. Preparar, apontar e... nada! A anestesia não funcionou.

Replay. Não funcionou de novo. “Será que estavam vencidas?” sussurra um deles.

 “O que fazemos agora?”

“ Vai de geral” .

 “ Não pode, ela fez duas transfusões hoje!”

 “ Mas tem que ser agora!”. Está tudo preparado e sabe lá quando vai ter vaga de novo.

 “Onde estará meu residente de cabelos ruivos?!” Não fujo porque estou amarrada.

Olho para a porta aberta e vejo a janelinha de vidro da sala em frente e não sei por que me lembro da música do Amado Batista: “No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via...”

Uma injeção na veia e quando abri os olhos estava numa maca em movimento, rodeada pela minha família. Não entendi nada. Só acordei de verdade, dois dias depois, quase sem poder me mexer e me sentindo muito mal, mas não estava só. As faxineiras continuavam ali, solidariamente assistindo a TV, sentadas em cima de nossos leitos e as colegas de quarto saboreavam as minhas sobremesas que se acumulavam sobre a mesa de cabeceira.

Estive ali durante nove dias. Dentro das limitações da falta de pessoal e apesar dos baixos salários, fui muito bem tratada pelos médicos e enfermeiras, só tendo a agradecer, pois após a cirurgia recuperei minha saúde.

Quatro dias depois da cirurgia, após assistir a agonia de uma das ocupantes do quarto, convenci o médico de que estava bem, me alimentando e com tudo funcionando (Mentira! Não fiz cocô nenhuma vez ali).

Consegui alta e saí numa cadeira de rodas. Só então, ao abrir a porta de casa, tive a real dimensão do quanto ela era limpa, acolhedora e que banheiro maravilhoso era o meu!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Se fosse hoje, talvez não estivesse viva para contar...

Sou otimista, espero um futuro melhor, acredito que a vida é boa e “a felicidade até existe”, não curto desgraças, prefiro falar das rosas e ignorar os espinhos, mas a realidade está aí e de vez em quando a gente deixa de ser espectador e passa a protagonista. Foi o que aconteceu comigo no verão de 2002.

Avenida Brasil próximo a Rebouças, 18 horas e muitos minutos. Trânsito quase parado, calor insuportável. De carona com minha amiga Silvia, voltava para casa após um exaustivo dia de trabalho quando, paradas num semáforo, vidros burramente semiabertos, aparece não sei de onde, um garoto, encosta algo em meu rosto próximo à orelha e pede dinheiro.

Silvia apavorada pede calma e vira-se para pegar a bolsa. Escorrego a minha para debaixo do banco, a féria do dia do restaurante estava nela. Não sei por que, burramente, virei-me devagar e olhei de soslaio o que ele encostava no meu rosto. Era uma garrafinha de refrigerante com o fundo quebrado.

Num reflexo, segurei-lhe o pulso. Ele tentou trocar o objeto de mão e eu segurei o outro pulso, gritando para Silvia fechar o vidro dela e tentar fechar a janela do meu lado. Com as mãos para fora, segurando o menino com toda força que Deus me deu naquela hora, olhava desesperada para o semáforo que não abria.

A Silvia não conseguia fechar o meu vidro, pois os meus braços estavam sobre ele, agüentando o peso do menino que com o pé apoiado na porta do carro esforçava-se para atingir meu rosto com a garrafa e tentava morder-me as mãos.

Olhava para o rosto esquálido daquele menino de uns doze ou treze anos, desfigurado pela raiva e pela miséria e sentia um misto de pavor e pena. Pavor pela possibilidade dele atingir meus olhos e pena por ver o que um sistema injusto, que deixa as drogas correrem solto, consegue fazer com uma criança.

O semáforo abriu, a Silvia arrancou e eu larguei o garoto que rolou no chão e sumiu. Pouco adiante o trânsito pára novamente. Que pavor! Foi então que apareceu um jovem, para nos perguntar se precisávamos de ajuda, pois ele presenciara tudo. Todos os que estavam à nossa volta presenciaram tudo, mas ninguém se arriscou a sair da segurança de seu veículo, mesmo vendo que o garoto só empunhava uma garrafa e eu o segurava.

O incidente me custou alguns hematomas nos braços, torcicolo e mau jeito no tornozelo e à Silvia, a certeza de por um bom tempo não voltar para casa por aquele caminho!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Não tenho tempo, Senhor!

Quando fiz 15 anos, ganhei de meu pai, a pedido, o livro "Poemas para rezar", e, é de lá que compartilho o texto que segue, sempre atual.



"Saí, Senhor.
Lá fora os homens saíram.
Iam,
Vinham,
Andavam,
Corriam.
As bicicletas corriam,
Os automóveis corriam,
Os caminhões corriam,
A rua corria,
A cidade corria,
Todo o mundo corria.

Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam no enlaço do tempo, para recuperar o tempo, para ganha tempo.

Até logo, doutor, desculpe-me - não tenho tempo.
Passarei outra vez, não posso esperar mais - não tenho tempo.
Termino aqui esta carta - pois não tenho tempo.
Queria tanto ajudar-te - mas não tenho tempo.
Não posso aceitar, por falta de tempo.
Não posso reflectir, nem ler, ando assoberbado - não tenho tempo.
Gostaria de rezar - mas... não tenho tempo.

Compreendes, Senhor, eles não tem tempo.

A criança está a brincar, não tem tempo agora... mais tarde...
O estudante tem os seus deveres a fazer, não tem tempo... mais tarde...
O universitário tem lá as suas aulas, e tanto, tanto trabalho que não tem tempo... mais tarde...
O rapaz pratica desporto, não tem tempo... mais tarde...
O que casou, há pouco, tem a sua casa, deve organizá-la.
Não tem tempo... mais tarde...
O pai de família tem os seus filhos, não tem tempo... mais tarde...
Os avós têm os seus netos, não têm tempo... mais tarde...
Estão doentes.
Precisam tratar-se... não têm tempo... mais tarde...
Estão à morte, não têm...
Tarde de mais... já não têm tempo.

Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor.
Passam correndo pela Terra, apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados. Nunca chegam, falta-lhes tempo, apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo, falta-lhes mesmo muito tempo.

Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.
Há um engano geral:
Horas curtas de mais, dias curtas de mais, vidas curtas de mais.
Tu que estás fora do tempo, Senhor, sorris ao ver-nos assim a brigar com ele.
E sabes o que fazes.
Não Te enganas quando distribuis o tempo aos homens, a cada um dás o tempo de fazer o que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo, não esbanjar tempo, não matar o tempo,
Pois o tempo é um presente que nos dás.
Presente perecível,
Um presente que não se conserva.

" Michel Quoist em "Poemas para rezar"

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Resiliente, graças a Deus!

Com a última publicação neste blog, “Antes e Depois”, que gerou diversas manifestações de solidariedade e de carinho, e, porque não dizer, de espanto diante do meu comportamento, se reforçou em mim a pergunta que jamais calou: “Como tenho aguentado passar por tantas coisas arrasadoras na vida, sobrevivendo a elas e realmente sentindo vontade de viver?”. 

Muitas vezes, vendo pessoas se desintegrarem física e psicologicamente diante de suas tragédias, sinto-me um monstro, o mais insensível dos seres humanos, uma  besta irracional. E, é claro, a isso se segue a culpa.

Por outro lado, minha filha, sempre critica minha “calma” ante as agressões da vida, a passividade diante do irremediável, a aceitação sem revolta. É “irritante” como afirma e completa: “a vida não é assim!”. Ela tem lá seus motivos, entendo, mas não é uma escolha ser como sou e isso eu não entendia. 

A terapia muito me ajudou no sentido de evitar que no momento de maior dor e confusão psíquica, eu perdesse a razão, mas não respondeu à minha dúvida existencial. 

Hoje de madrugada, ouvindo o rádio como sempre o faço, a colunista Inês de Castro entrevistava um médico, acho que psiquiatra, e, de forma objetiva ele esclareceu minhas dúvidas, explicando cientificamente, porque uns se desintegram diante dos grandes traumas e outros resistem, sobrevivem à morte de um filho e continuam a se “arrastar”, foi esse o termo que ele usou se arrastar pela vida, conseguindo trabalhar, amar, sonhar, ter lazer e até ser feliz e fazer outros felizes. Essa capacidade deve-se à “resiliência”, atributo nato ou que pode ser desenvolvido com terapia.

Perdi o sono de uma vez e fui pesquisar sobre o significado desse termo. Encontrei uma publicação, no site de uma clínica de psicologia,  que começa assim:

 “Os resilientes são aquelas pessoas que passam por dificuldades, como todo mundo, só que a reação deles não é igual a de todo mundo, com eles a coisa é diferente, por mais fortes e traumáticas que sejam as dificuldades, eles superam. O resiliente é aquele que, mesmo quando perde o emprego, morre o amigo, a esposa pede o divorcio, repete na escola, ainda assim, ele continua lá, firme e forte, ele não se deixa derrubar.”

Depois do programa e de ler a matéria toda, cheguei à conclusão que não sou um monstro e nem faço “o jogo do contente”. Graças a Deus, sou apenas uma resiliente que tem fé!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

ANTES E DEPOIS

A exumação dos restos mortais do meu filho ontem, me levou a reler alguns escritos e, em especial este que ora compartilho. Não como vítima, mas como testemunha de que apesar de tudo a vida continua e vale a pena ser vivida. 

O corredor é estreito e mal iluminado. A atendente avisa: 

 - Tem muito sangue, tem certeza que quer olhar? 

 - Como saber se não olhar? 

Ela abre uma porta pintada de branco, muito suja. Apesar do frio daquela manhã de agosto, lá dentro é abafado. Mal consigo respirar. A mulher, uma negra simpática e afável, com uma expressão lancinante de piedade no olhar, estende o braço pela porta aberta, tateia e acende uma lâmpada. 

 - Não acha melhor esperar alguém para acompanhá-la? Não vai se sentir mal? 

 - Pior é impossível. Preciso ter a certeza já! 

Entramos. Ela na frente, eu atrás. O cômodo mal iluminado, sem janelas, pelo menos se as tinha, não vi, não permite ver além do foco da lâmpada. O foco da lâmpada que ilumina um balcão de concreto aparente, creio eu, sobre o qual repousa um enorme volume preto. Ela ainda me olha mais uma vez, com aquele olhar que dizia mais que mil palavras, dá um passo à frente, estende a mão sobre o volume e lentamente vai abrindo um zíper que parece não ter fim. 

As batidas do meu coração me sufocam e ensurdeço. Meu corpo todo pulsa comandado por uma esperança que minhas entranhas avisam ser vã. Ela dá um passo para trás para me ceder espaço. 

 - Pronto, pode olhar. 

Não me lembro do que vi, graças a Deus o cérebro dispõe de mecanismos de defesa, que nos imunizam contra a realidade permitindo a preservação da sanidade. Não lembro, mas sei o que vi e por não acreditar, ainda peço para ver mais uma vez. 

As pernas fraquejam. O cheiro de sangue quente me enjoa. Jamais vou esquecer aquele cheiro. Meu corpo estremece e a dor é tanta, que as carnes doem. Doem como se despregassem dos ossos e o sangue não conseguisse passar pelas veias e artérias. 

 - A senhora está passando mal? Quer alguma coisa, um café forte? 

 - Não, obrigada. 

Respiro fundo, quase sem forças para sugar o ar, levanto a cabeça e com passos firmes vou até o posto policial e faço o que tem que ser feito: informo à autoridade de plantão, que aquele corpo perfurado de balas, ali recolhido como um entulho é meu filho, gerado e criado com extremo amor e arrancado de mim pela maldição das drogas. Preencho o formulário sem sentir as mãos e saio sem rumo. 

Tudo não leva mais de 15 ou 20 minutos, mas são os minutos que dividem minha existência em ANTES e DEPOIS.


Paulo Daniel  *20/01/1978 
                      +15/08/1999

terça-feira, 24 de julho de 2012

De volta a Aparecida

Estive em Aparecida do Norte diversas vezes nesta longa estrada da minha vida. Vi as transformações da cidade e do Santuário, cuja obra gigantesca acho, nunca chegará ao término, pois as necessidades e os costumes se renovam e requerem sempre novos adendos.


A primeira vez que lá estive foi em 1964, quando fui com meu noivo, minha mãe e irmã. Uma moça de família não saía só com o namorado, mesmo que fosse para visitar a padroeira. Desse dia lembro-me da longa viagem de ônibus e de visitar a igreja velha.



Guardo a foto oficial da visita, feita pelos fotógrafos de plantão que não perdiam a oportunidade de faturar às custas dos visitantes.

Família dos meus sogros

Depois voltei à cidade algumas vezes para levar minha sogra, senhora de fé, membro do Apostolado da Oração e muito devota de Nossa Senhora Aparecida, de quem tinha uma bela imagem no oratório em casa e de Santo Antonio, padroeiro da cidade em que viveu a maior parte de sua vida – Americana – SP.

(Obs. As fotos que se seguem são atuais.)



Além da Sala dos Milagres, desorganizada e de aspecto surrealista nessa época, a passarela, recém-inaugurada era o objetivo da minha caminhada por lá, depois da visita à imagem da Senhora, é claro.


 

Em 2000 lá estive com filho, nora e netos e novamente tudo se me apresentou por um novo ângulo. Aparecida é assim, nunca é a mesma que vimos da última vez. 


E agora, nos dias 19, 20, 21 e 22 de julho, voltei à Terra da Mãe Aparecida para o 3º encontro Nacional da Pastoral da Comunicação. Encantei-me com a disposição e organização de todos os setores do Santuário. Uma infraestrutura impecável e perfeita para acolher com aconchego e dignidade a imensa massa de fiéis que para lá se dirigem diariamente.


Embora os trabalhos nos tomassem todo o tempo durante o dia, tentei apreciar ao máximo a magnífica arquitetura da basílica em cada um de seus detalhes e a cada novo ângulo me surpreendia. 


Espero voltar muitas vezes para reverenciar a Senhora da Conceição Aparecida, levar-lhe meus agradecimentos e súplicas, mas também para explorar com mais tempo recantos e detalhes da área do santuário e da cidade que escaparam desta vez.

sábado, 14 de julho de 2012

FUÇANDO O BAÚ - II

"Mas sempre foi assim e sempre será,  o novo vem e o velho tem que parar"
(Triste Berrante - Sérgio Reis)

Sigo pela calçada do lado ímpar da Tutóia.

Atravesso a Teixeira da Silva e de repente tenho a sensação de que não estou no lugar onde por 17 anos morei. Do quarteirão todo restam apenas o prédio de apartamentos na esquina com a Teixeira da Silva e a pizzaria Estrela do Paraíso, a melhor pizza que já comi, na esquina com a Maria Figueiredo, mas como soube hoje, também será demolida. O resto um grande vazio. Foi tudo abaixo para dar lugar a construção de mais um condomínio.

 Do lado da Tutóia, desapareceram a danceteria Shampoo, a floricultura da Beth, um prédio de apartamentos de 6 andares e uma casa comercial, acho que era uma escola de computação ultimamente e do lado da Maria Figueiredo, diversos imóveis particulares.

Foi como se o chão sumisse debaixo dos meus pés. Aos poucos tudo o que eu conhecia naquele pedaço, vai desaparecendo e dando lugar ao novo. Não existe mais a padaria, o bar do Geraldo onde se comia a melhor carne de sol com macaxeira da região, a casa da doutora Vera, minha dentista, bem como todas as outras casas daquele outro quarteirão.

Aos poucos a Rua Tutóia muda de cara e os antigos e conhecidos comerciantes se vão, ficando no lugar de seus estabelecimentos à moda antiga, grandes condomínios fechados de onde só se vêem carros entrando e saindo, como se só de veículos se constituísse a população desta cidade.

No ponto de ônibus, olhei para o edifício onde morei, quase em frente. Esse está lá, do mesmo jeito, do outro lado da rua. Essa visão associada ao grande vazio atrás de mim desestruturou-me. Não pude conter as lágrimas.

Virei-me para não ser observada pelas pessoas em volta e vejo bem perto de mim um senhor muito familiar que também olhava pensativo para aquele vazio. Penso um pouco e, eureka! Mais um encontro nesse dia tão cheio de novidades. É o senhor Luis, o farmacêutico, cuja farmácia também não existe mais.

Mas essa é apenas uma cena do próximo capítulo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

EEPG César Martinez - Moema



Meus pais, em anos diferentes e sem se conhecerem, freqüentaram o Grupo Escolar César Martinez, em Indianópolis, que à época funcionava num prédio localizado na Alameda Iraé, atrás da Igreja N Sra Aparecida, no local onde hoje funciona o Centro Comunitário da Paróquia. 

Em 1953, na esquina da Alameda Iraé com Avenida Indianópolis, foi inaugurado o novo prédio da escola, construído no antigo campo de futebol do Clube União de Indianópolis, clube onde meus pais se conheceram. O Grupo Escolar César Martinez passou a ser então o local de votação aonde nos dias de eleição, acompanhava meus pais e aproveitava para correr naquele pátio imenso. 

Em 1984, de volta a São Paulo, depois de morar 15 anos em Mogi das Cruzes, inscrevi-me no concurso de remoção de professores. Na época, indiquei 25 escolas, abrangendo desde a Luz até Santo Amaro, mas nem sequer lembrei do César Martinez. Fui removida para a EEPG Prudente de Morais, na estação Tiradentes do Metro, ao lado da FATEC. 

Comissionada numa instituição filantrópica, a Casa D Macário, na Vila Maria, no ano seguinte inscrevi-me de novo na remoção e indiquei três escolas: a EEPG Rodrigues Alves, na Av Paulista, a EEPG Mario de Andrade, no Brooklin, onde cursara o primário e a EEPG César Martinez, que redescobrira por acaso num passeio em Moema. Fui premiada e removida para o César Martinez, lecionei ali de 1987 a 1995 como efetiva e aposentada, continuei como substituta com classe até 1998. 

Foram anos de trabalho prazeroso, numa escola tradicional e conceituada, com excelente corpo docente, onde conquistei amigas que preservo ainda e que fazem parte desse pedaço da minha vida, ligado a uma escola, que mesmo antes de eu nascer já fazia parte da minha história.

Na foto, da esquerda para a direita e de cima para baixo: Regina, Vera, Cleide, Silvia, Jacira, Claudia, Iveta, Ana Emília, Ernestina, Olga, Helena, Rosa, Maria José (diretora interina)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A morte de D. Eugenio levou-me a lembrar de D. Paulo

De 1971 a 1985, moramos em Mogi das Cruzes.

De tempos em tempos, vínhamos a São Paulo, para passar o fim de semana com meus pais. Nessas ocasiões meus filhos se esbaldavam no quintal e não davam folga ao avô, que lhes dava uma canseira no futebol. Era uma festa! Festa que na tarde do sábado, 2 de agosto de 1975, foi interrompida por minha avó:

- “Estava ouvindo o rádio e acho que aconteceu alguma coisa com um padre conhecido de vocês”.

Ligamos o rádio e logo ouvimos a notícia da morte de D. Paulo Rolim Loureiro e de seu  motorista, num acidente de automóvel, no Largo Ana Rosa,  no cruzamento das Avenidas Rodrigues Alves com Domingos de Morais. Foi uma correria, meu marido, diácono permanente da Igreja, ordenado em Mogi por D Paulo, era a pessoa mais próxima do bispo que se encontrava aqui em São Paulo. Assim, seguiu imediatamente para o IML, onde acompanhou a necropsia e os procedimentos para liberação dos corpos e seguiu com eles para Mogi.

No domingo veio buscar-nos e naquela semana, após uma comovente celebração de corpo presente, com os esquifes do bispo e de seu motorista lado a lado na nave central da catedral de Mogi, lotada até do lado de fora, sepultamos nosso querido pastor, no interior da igreja, do lado esquerdo da porta principal.

Dom Paulo Rolim Loureiro foi o primeiro bispo da Diocese de Mogi das Cruzes. Eu o conheci em 1972, no Clube de Campo, no coquetel comemorativo dos 10 anos da criação da Diocese de Mogi das Cruzes. Atuava antes, como bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, onde, entre outras atividades, em 12/10/1955 assinou o decreto de criação da Diocese de Santo Amaro e em 1957, abençoou a pedra fundamental da igreja de Nossa Senhora da Penha.

Aristocrático, formal, da ala conservadora da Igreja, era, no dia a dia, simpático, interessante, afável e bem humorado. Mas formal. Freqüentava nossa casa e dessas visitas, ficou marcado um almoço de domingo. Após uma breve oração, iniciamos o almoço, logo interrompido por minha filha Cristina,   muito pequena, dizendo que queria fazer “Tchi... Tchi...”.

Entendemos “xixi” e meu marido toma-a pela mão para levá-la ao banheiro. Ela empaca contrariada e grita: “No copo, pai!”. Então entendemos: ela queria brindar, como fazíamos sempre, nas reuniões familiares. Dom Paulo deu uma bela risada, sentamo-nos e brindamos o ilustre visitante, que daquele dia em diante, toda vez que nos encontrava, perguntava pela menininha que queria fazer xixi no copo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

FUÇANDO NO BAÚ - I

"Nada como um dia depois do outro..."

Quarta-feira, 12 de abril de 2006. Lá pelas 13h30min, saio com algumas tarefas para cumprir. Coisa de umas duas horas e estaria de volta. Demorei mais de 8 horas e só resolvi dois assuntos, mas em compensação tenho uma novela para contar. Claro que será em capítulos. 

Embarco em um ônibus na Vicente Rao e desço na Brigadeiro Luiz Antonio, para dali seguir a pé até ao Banespa da Tutóia. Entre o ponto e o banco, 5 quarteirões, acontecem dois encontros inesperados. 

O primeiro no portão da casa de dona Maria Angélica, mais de 80 anos. Ela espera o rapaz que vem auferir o consumo da água, para “conferir” seu trabalho. Paro. Somos conhecidas há muitos anos.  Cumprimentos calorosos, relatórios sobre como estão os velhos  moradores da Rua Álvaro de Menezes - dona Dilma morreu, faz uns seis meses – e sobre o mais importante: o bingo da igreja do SSMO. Sacramento. Ah! Dona Maria Angélica é viciada nesses bingos da igreja, não perdia um até que machucou o joelho e precisou fazer repouso. “Mas logo fico boa e volto a participar”, comenta animada enquanto sigo meu caminho. 

Atravesso a rua e encontro a Dora e a filha. Essa Dora, a melhor amiga da “outra”, sempre que me encontrava, media-me dos pés à cabeça e com o nariz torcido suspirava: “Você está tão magra! O que aconteceu?”. Justo eu que não mudo de peso há pelo menos 25 anos! Naquela época, meados da década de 90 ela já estava com seus 60 anos. Estudava psicologia e tinha essa filha com 15 ou 16 anos. Diziam as más línguas, que ela estudava para conseguir um marido, visto que era viúva. Encontrava-me com ela quase todas as tardes quando retornava do trabalho e passava no supermercado Yayá para pegar o pão. 

 Nesse dia estranhei. Ela me olhava como se não estivesse me vendo, através de mim. Cumprimentei e beijei as duas e logo percebi que ela não estava nada bem. Aí, a filha, que sempre foi muito direta, soltou a pérola: "Mãe, não tá lembrando dela? É a Lidia, a ex-mulher do xyz, “aquele”, da Geny. Lembra?”. “Ah... é mesmo...”, balbuciou inexpressivamente. 

Eu não sabia se ria do “feeling” da menina, que sempre foi meio brucutu, ou se chorava por causa do estado lastimável daquela que vivia me encolhendo. Despedi-me com os beijinhos de praxe e segui lembrando da avó de uma amiga que dizia: “Nada como um dia depois do outro”.

Foto: Rua Tutóia, lado ímpar, esquina com Manoel da Nóbrega - 1986

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Aquilo que era vida!

O ano de 1960 foi muito especial para mim.

Cursava o 3º ano do antigo ginásio e dava aulas de reforço para dois primos, Moacyr e Pedrinho, ambos, dois anos mais novos que eu.

Aos sábados eles vinham à minha casa para as aulas e podiam ficar  até a hora que quisessem, aos cuidados da “Lídia, a prima mais velha, comportada e ajuizada”.

Colocávamos a matéria da semana em dia, depois... iahuuuuuuu!!!!! Liberdade! Pegávamos nossas bicicletas e partíamos em direção ao Aeroporto de Congonhas.

Da rua do Níquel, no Brooklin, até o aeroporto é uma boa estirada (é só olhar no Google), boa parte dela com subidas íngremes. As ruas eram de terra, com sulcos feitos pelas enxurradas e cobertas de pedregulhos e as bicicletas não tinham marchas. Nosso objetivo era apostar corrida.

Quando chegávamos ao aeroporto, respirávamos fundo e 1...2...e já! Descíamos desabalados através da Washington Luís, Joaquim Nabuco, Zacarias de Góes, Martim Francisco (hoje Laplace), a rua do Ouro ( hoje Constantino de Souza), a Platina ( atual Eng Luis A Tambasco) - que mania que eles têm de mudar os nomes das ruas!... - e finalmente rua do Níquel. Não havia trânsito, atravessávamos as ruas sem parar para olhar, levantando poeira e pedras.

Quando os meninos iam embora, a prima ajuizada escondia os joelhos e cotovelos ralados e esperava feliz da vida pelo próximo fim de semana para se soltar livremente por aquela São Paulo serena e amiga.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

SALVO PELA GENTILEZA

Gentileza é um vocábulo que não tem registro no dicionário de muitos.

Conta-se uma história de um empregado em um frigorífico da Noruega.

Certo dia ao término do trabalho, foi inspecionar a câmara frigorífica. Inexplicavelmente, a porta se fechou e ele ficou preso dentro da câmara. Bateu na porta com força, gritou por socorro mas ninguém o ouviu, todos já haviam saído para suas casas e era impossível que alguém pudesse escutá-lo.

Já estava quase cinco horas preso, debilitado com a temperatura insuportável, quando, de repente, a porta se abriu e o vigia entrou na câmara e o resgatou com vida.

Depois de salvar a vida do homem, perguntaram ao vigia por que ele foi abrir a porta da câmara se isto não fazia parte da sua rotina de trabalho... Ele explicou:

 - Trabalho nesta empresa há 35 anos, centenas de empregados entram e saem aqui todos os dias e ele é o único que me cumprimenta ao chegar pela manhã e se despede de mim ao sair. Hoje pela manhã disse "Bom dia" quando chegou. Entretanto não se despediu de mim na hora da saída. Imaginei que poderia ter lhe acontecido algo. Por isto o procurei...

(Desconheço o autor)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Mais lembranças da Casa Dom Macário

Já escrevi sobre a Casa D. Macário, na Vila Maria, onde lecionei e lendo, emergem mais fatos daquela época. 

Jamais esqueci um aluno em especial, o Washington, 7 anos, loirinho, olhos azuis, cútis e lábios manchados pela longa exposição ao sol. Era o caçula de três irmãos, também loiros e de olhos azuis, como a mãe. Esta, catarinense, descendente de alemães fora abandonada pelo marido com os três filhos pequenos. Sem conseguir emprego e lugar para morar acabou instalando-se na favela e vivia da garimpagem do lixão próximo dali. 

Algumas vezes dei carona uma freira que visitava as famílias daquela favela e lhes levava roupas, alimentos, remédios. 

Na entrada, tínhamos que deixar o carro, pois ali não havia ruas, mas vielas entre os barracos e no meio delas o esgoto que corria a céu aberto, à beira do qual crianças semi nuas, cachorros, aves, se misturavam numa imundície de partir o coração. 

Certa vez fomos ao barraco onde morava a família do Washington, pois ele não comparecia à escola há vários dias e fomos informadas que estavam doentes por lá. Era uma estrutura de paus, pouco mais alta do que eu, coberta com restos de plásticos, lonas e papelões, A porta era um pano dependurado e para entrar era só afastá-lo do caminho. Estava na área mais miserável da Favela Funerária. 

No espaço minúsculo não havia móvel algum e todos dormiam num amontoado de trapos no chão. Nas laterais, prateleiras improvisadas abarrotadas de plásticos, lavados precariamente e amarrados em pacotes exatamente iguais, ao lado de pilhas de embalagens tetrapac também amarradas em blocos. Nos entre meios dessa mercadoria à espera de comprador, pilhas de frutas e legumes em estado de decomposição, cobertos de moscas, também recolhidos do lixão para alimentar a família. 

 A mãe, judiada pelas intempéries, ainda guardava os traços da bela mulher que fora. Era culta e na ocasião escrevia poesias onde contava sua vida. Na época D. Afonso, o diretor da Instituição, tentava conseguir uma editora para a publicação de um livro com os escritos dela e quem sabe com isso ajudar no sustento da família. Saí de lá e não soube o final da história. 

No período da tarde, lecionava Educação Artística, Desenho Industrial e Geometria para as 5ª, 7ª e 8ª séries. A maioria dos meninos estava sob supervisão do Juizado de Menores ou em liberdade assistida. A disciplina de modo geral era boa, mas se necessário, um jovem monitor de classe assessorava no trato com os meninos rebeldes. 

Ao ser contratada, D Afonso deixou bem claro, que as aulas de Educação Artística deveriam funcionar como momentos de descontração para aqueles meninos tão massacrados pela vida. Deveria exigir respeito e disciplina, mas nunca cobrar formalmente os trabalhos. Assim, tentava fazer das minhas aulas um encontro, onde além de realizar algum trabalho artístico, conversávamos sobre artes e artistas e sobre o momento que estávamos vivendo – anseios, alegrias, tristezas, etc. 

Numa dessas aulas, no primeiro ano que ali trabalhei um garoto de 15 anos, da 8ª série, rebelde sem causa, me desafiava veladamente. Estávamos nos conhecendo, falando sobre nós mesmos, quando ele me perguntou onde eu morava. Não devia responder com exatidão, por motivos óbvios, mas não queria mentir, assim, ingenuamente disse que morava próximo ao Ibirapuera. Foi o suficiente para ele se levantar e começar a ironizar: 

 “Claro, toda madame mora perto de um lago! Deve morar numa daquelas mansões de frente para o parque. E vai querer “ensinar” pra gente! Deve ter um carrão com motorista...”.

Deixei-o falar. Quando parou perguntei se eu também poderia dizer alguma coisa. Ele, sempre ironizando, respondeu “claro, madame!”. 

Pedi-lhe então que, por favor, se sentasse e contei à turma um pouco da minha vida, desde as dificuldades para estudar, sendo filha de operário e sem recursos, até as dificuldades atuais e convidei-o a conhecer meu carrão – uma Brasília velha - sem a qual não conseguiria chegar às 7 horas da manhã naquela escola, onde realmente trabalhava por amor.

 No começo foi difícil, mas no meio do ano já sentávamos em círculo, conversávamos e eles até me contavam sobre seu dia a dia na favela, onde matadores executavam suas vítimas na frente de todos, colocavam-nas em carretos e jogavam às margens da Guarapiranga. Matadores esses, que eram os donos do lugar, temidos e amados por aquela pobre gente, que deles recebiam proteção e alguma ajuda nas vicissitudes e que nunca os denunciavam. Alguns, presentes até nos noticiários das grandes emissoras da época. Nada diferente do que se ouve e vê hoje em dia na mídia de uma forma tão banalizada que não surpreende e quase nem choca.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Então é JUNHO...


Quando era criança a chegada do mês de junho representava, depois do Natal, tudo de bom que pudesse desejar.

Era o mês dos aniversários meu e da minha irmã, o que significava ter o privilégio de comer por duas semanas seguidas o delicioso bolo branco, que só minha mãe sabia fazer, recheado com morangos, coberto com glacê de suspiro, coco e bolinhas prateadas. A festa se resumia na família à volta da mesa, no bolo com as velinhas, aquelas fininhas, tantas quantas os anos de vida e o "Parabéns a você".

Depois dos aniversários começava, já no dia 13, com a festa de Santo Antonio, o ciclo das fogueiras, fogos, balões, quentão, batata doce assada na brasa e outros quitutes. Um dia em nosso quintal, outro num vizinho e assim a brincadeira corria solta até a esperada véspera de São Pedro, aniversário de casamento de meus avós Luiz e Deolinda.


Nesse dia, enquanto minha avó preparava o quentão, as batatas e outros comes e bebes, meu avô, homem de poucas palavras, arrumava a fogueira e providenciava os fogos. Meu tio, depois os primos, faziam lindos balões com folhas de papel de seda colorido, coladas com goma arábica. A tocha, de saco de estopa com parafina e breu, amarrada com arame fino e embebida em querosene, elevava-os às alturas. Não se falava em proibição naquela época e nosso bairro se resumia a raras residências.


Ao encontrar meu príncipe encantado descubro que também ele aniversariava em junho, entre Santo Antonio e São João e nos casamos num dia 26 de junho.

Os anos se passavam e junho continuava sinônimo de festa, até que em 1988, num dia 4, perdemos um filho, e a partir daí, as festas continuaram a ser vivenciadas, pois a vida continua, mas acrescidas de uma pitada de dor. Mas, talvez para nos dar uma cutucada, foi também num 4 de junho, que nos nasceu uma neta, a terceira de nossos 9.

Hoje, entre aniversários, lembranças, novenas do Sagrado Coração de Jesus e festas juninas, quase nem percebemos esse mês passar, mas sempre saímos dele intensamente marcados pelas emoções.

sábado, 12 de maio de 2012

10 de maio de 1970. Dia das Mães.

Um dia especialmente feliz, pois anunciava a chegada do maior presente que eu poderia receber. Logo cedo fomos para a casa dos meus pais – minha filha Maria Cristina, então com 3 anos e 7 meses, meu marido e eu – o almoço festivo seria lá.


Um dia normal, não fosse pela expectativa e pelo cansaço que me impedia de desfrutá-lo plenamente. Depois do almoço, um aviso e a impressão de que o presente estava chegando. Uma saidinha para checar, mas ainda não estava na hora.


Lá pelas 19 horas um aviso mais significativo e lá fomos de mala e cuia para a Santa Casa de Santo Amaro, onde já nos esperava o Professor Doutor em Ginecologia e Obstetrícia daquele hospital e da faculdade de medicina dali, Francisco Cozzupoli. Já trouxera ao mundo a Cristina, assim, me sentia tranqüila e segura.

Comecei a contar os minutos que me separavam do meu presente daquele dia das mães, mas, as horas se passavam, nada acontecia e o domingo acabou. Pouco antes das 4 horas, decidiram por uma cesárea (como da vez anterior), e, exatamente às 4h e 5 min, daquela madrugada gelada, tiritando de frio e chorando de alegria, aqueci meu coração com a mais bela visão que uma mulher pode ter, e a minha era a mais bela de todas – um menininho loirinho, quase careca, chorando a plenos pulmões com seus 52 cm de altura e 3,850kg de peso.

Meu presente do dia das mães daquele ano chegou um pouco atrasado, no alvorecer da segunda-feira, esteve comigo 18 anos, 24 dias e 7 horas, mas como fiz constar na lembrança de sua missa de sétimo dia, agradeço a Deus cada minuto desse tempo.


A última foto.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Enfim sós!

Fazia tempo, muito tempo, talvez uns seis anos ou mais. Não que fosse uma paixão, seria algo assim como saudades de um amor antigo, vivido numa época de inocente felicidade. Só sei que precisava revê-lo. Precisava me dar a oportunidade de ser eu mesma a seu lado.

Naquela mesa, frente a frente, me redescobria como pessoa, indivíduo liberto da relação siamesa que tenho vivido nos últimos tempos. Sim, era eu! Eu mesma capaz de tomar a decisão de estar ali e fazer uma escolha.

À medida que interagíamos, as sensações faziam aflorar emoções adormecidas, gratas lembranças, uma viagem no tempo. Tempo em que ele era a razão de longas tardes de preguiça e conversa jogada fora,que sempre terminavam com aquela sensação de satisfação e plenitude.

O dia estava glorioso, quente, ensolarado, convidativo para uma esticada naquele momento, ir além. Da janela a vista não era das mais bonitas. Onde encontrar uma bela vista nesta cidade caótica, onde para qualquer lado que se olhe só se vê carros, carros e carros. Mas isso não importava. Nós estávamos juntos e o momento era perfeito, revigorante.

O tempo corria implacável e a hora de voltar ao mundo real já se deparava à nossa frente. Aos poucos ele desaparecia diante dos meus olhos como que diluído por uma voracidade faminta e insaciável. Seus atributos, um a um ainda se faziam presente a despertavam meus sentidos, mas era chegada a hora.

Assim, depois de saborear um refrescante sorvete de casquinha, saímos sem nos despedir. Bem perto do coração, lá estava ele, o querido Big Mac, objeto do meu desejo naquele dia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Salve os valorosos soldados do fogo!


1998. Tarde quente de fim de primavera.  Chego da escola por volta das 18h, faminta. Em seguida chega meu marido e me convida para irmos ao supermercado Yayá, próximo de casa. Demoramos por lá.

Ao sairmos, após as compras, sirenes ecoavam e carros de bombeiros davam voltas no quarteirão. Curiosa, comecei a procurar por fumaça, pois o último veículo que passou por nós foi aquele caminhão enorme, com a escada magirus. Não vi nada.

Ao chegar em casa,  abri a porta ainda ao som das sirenes, e meu apartamento, sexto e último andar, estava completamente cheio de fumaça. Da porta não se via o quadro na parede da sala, a 3 metros de distância. A cachorra corria de um lado para outro espirrando, tossindo. O cheiro amargava a garganta, sufocava. 

Corri para a cozinha e eis que dois pedaços de pizza que deixei aquecendo no miniforno elétrico, não só aqueceram como pegaram fogo, enegrecendo os azulejos, queimando a mesa de sustentação, manchando teto, destruindo forninho.  Desliguei e corri abrir as janelas.

Já era noite e a fumaça saindo desenhava, em contraste com a iluminação da rua, caracóis etéreos, que subiam em direção ao céu. A cachorra já estava a salvo no banheiro, único lugar livre da fumaça. 

A campainha da cozinha toca. Quem seria àquela hora, com toda aquela bagunça e mau cheiro por toda parte? 

Abro a porta. Seis maravilhosos soldados do fogo chegam para me salvar. Machado em punho, cordas, máscaras e outras parafernálias adequadas à situação. Só pensava em encontrar um buraco e me esconder. Mal cabiam todos na pequena cozinha. Já repararam como os bombeiros são altos e fortes (e por que não dizer: bonitos naqueles uniformes cheios de adereços)?

Com educação e simpatia, explicaram que vieram para atender um chamado devido à fumaça que saía de uma área de serviço naquele endereço. Mostrei a causa do transtorno, os dois carvões de pizza, menores que caixas de fósforos, e envergonhada, pedi desculpas. 

Eles riram, declararam-se aliviados e explicaram que é melhor prevenir do que remediar.

Fotos da época: Vistas da janela do AP, sentido 23 de maio e sentido Brig. Luiz Antonio

quinta-feira, 29 de março de 2012

Em Moema “A Vida Era Bela”

1939 – começa a 2ª guerra. Walter, operário, 19 anos e Maria, empregada doméstica, 16 anos, ambos moradores de Moema, que então chamava-se Indianópolis, não se conheciam e enquanto alguns jovens do bairro lutavam numa guerra que não era deles, suas vidas continuavam, apesar do fantasma de uma possível convocação.

 Em Moema havia um clube: o União de Indianópolis – uma sociedade com salão de baile e campo de futebol, este, na Alameda dos Maracatins. Foram seus presidentes nessa época, o Bigode e o Sr. Pinhão, dos quais infelizmente só lembramos os apelidos. Também havia o Antonio Saraiva, o Palha, que era diretor esportivo do clube.

Walter, o Meningite, apelido dado pelos colegas que se reuniam no Largo Franco, era goleiro do time de futebol e foi locutor do programa de calouros do clube, A Peneira, até que o substituíram por Jorge Frassati, melhor qualificado para ler os comerciais dos patrocinadores.

 O Mario Cozel, chefe da mecânica na Fiação Campo Belo, também jogava no time e tinha uma cunhada que no final do ano emprestava um piano para a final de gala do concurso de calouros, ocasião em que as lojas patrocinadoras ofereciam os prêmios aos melhores. (Esse Mario Cozel, era o pai do Mario Cozel Filho, aquele jovem que foi morto na explosão de um carro bomba, na porta do 2º exército, durante a vigência do AI-5. Ele servia o exército e estava de sentinela naquela hora. O jipe foi abandonado ali e ele foi verificar de que se tratava. Era um atentado terrorista e ele morreu. Aquela praça em frente ao QG do 2º Exército tem o seu nome e um busto em sua homenagem).

 Voltando ao União de Indianópolis, aos domingos o Narciso Vernise – o Homem do Tempo que todos conhecemos - irradiava pelo alto falante, as corridas de cavalo do Jóquei Clube, para os freqüentadores do campo de futebol. Um dia, durante um campeonato de várzea coberto pela Rádio Panamericana, ele foi notado e convidado pela equipe para apresentar,  naquela emissora, o programa sobre metereologia.

 O Ernesto Cinquetti, também fazia parte dessa turma e quando os pracinhas de Moema voltaram da guerra, ele mandou celebrar uma missa em ação de graças com a presença deles no campo de futebol da Fiação Indiana. Foi uma comoção geral!

Maria, freqüentava um cinema do bairro, acompanhada sempre pela mãe e pela melhor amiga – Nair. Não perdia um filme do Nelson Ed com a Janette Mac Donald – dramas cheios de sofrimento e música lírica. Muito bonita, Maria era comparada a atriz Mary Pickford.

 Durante as sessões de cinema, nas cenas mais tristes, ouviam-se estrondosas gargalhadas na platéia. Era um grupo de rapazes, o Jorge, o Ricardo e o Nêgo, que incógnitos, divertiam-se em ridicularizar o comportamento das choronas de plantão e à saída, ficavam nas portas, zombeteiros, encarando as moças de olhos vermelhos e lacrimejantes.

 Walter e Maria se conheceram nos bailes do União, namoraram e casaram-se em 1943. Enfrentaram juntos racionamentos, blckouts, desemprego e em 1945, no final da guerra, pouco antes de Hiroshima e Nagasáki, tiveram uma filha: eu.

quinta-feira, 22 de março de 2012

08/08/2008 – O dia da felicidade!

Procurando uma foto, achei isto aqui. Deixo registrado.


08/08/2008 – Segundo os oráculos, nesta data cabalística tudo de bom deve acontecer.


Acordo às 4h com o toque do telefone. Susto. Medo. Dor de cabeça. Um engraçadinho me chamando de "meu bem". Ainda se fosse verdade...




Abertura das Olimpíadas – que coisa linda! Meu pai não para de reclamar e criticar. Para ele nada é bom. Largo-o sozinho e assisto com a mãe, para quem tudo é maravilhoso.


11h - Ligo para o banco. A voz gélida da máquina me informa que o meu salário não está lá! Susto. Medo. Dor de cabeça. Zumbido no ouvido. Como vou pagar as contas?!


Dirijo-me ao estabelecimento bancário. Sou aposentada e esqueci de fazer o recadastramento no mês do aniversário e, para o Estado, morri em junho. Já sou mais ossada que de costume. Como o funcionário público faz jus ao auxílio funerário, ainda recebi o salário em julho, por isso não percebi antes.


Para ressuscitar, bastou apresentar-me pessoalmente ao gerente, com o holerite e a identidade em punho. Tudo resolvido. O salário estará disponível em 10 DIAS ÚTEIS! As contas que esperem até lá!


Começo da tarde, voltando do banco. Cruzamento da Joaquim Nabuco com Vereador José Diniz. Sinal vermelho. Chove muito. Estou na faixa da direita, rente à calçada. O motoqueiro vem e choca-se com o para choque traseiro. Nem liga. Digo:


 - Olá mocinho, você viu que bateu no meu carro?


 - Eu não bati, foi meu braço que esbarrou aí!


 - Que braço duro heim?! Foi a moto!!!


 - Olha aqui dona, eu bato o meu braço nesse lixo e você reclama!! Acha que vou bater minha moto? Ela custa $40.000, não é como esse lixo! Tá pensando que sou moto boy? NÃO!!! Sou polícia!


 - Ká! Ká! Ká! Tô morrendo de medo!!!!


 O mocinho arrogante sai com o farol fechado e se lança no mundo em ziguezagues estonteantes. E chove! 


Sabe o que mais doeu nesse dia da felicidade? Ouvir chamar o KA-rrinho de LIXO!!!!


Só lembrando: Os organizadores das Olimpíadas de Pequim enganaram bilhões de pessoas com a apresentação daquela menina graciosa vestida de vermelho na abertura dos jogos, a Lin Miaoke dublando a voz de Yang Peiyi, que não apareceu por ser considerada feia. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Encontros e mais encontros...

Com Damáris na Casa das Rosas em abril de 2007

Participo do www.vivasp.com, um site de memórias paulistanas, desde a sua criação em 2003 e desde então tenho vivenciado momentos de emoção e alegria,  compartilhando memórias de vida e da cidade, recebendo demonstrações de carinho, conquistando amizades. Por causa dessa participação fui encontrada e pude reatar contato com pessoas que há muito não via. Conto um desses reencontros.

No dia 23 de março de 2007 recebi a seguinte mensagem de email:

 “Oi Lídia, Tive uma surpresa agradável em descobrir seu e-mail em um comentário sobre o Senhor Roque Petroni, antigo farmacêutico do Brooklin. Eu conheci você na Legião de Maria. Não sei se você lembra. Por favor, ligue para tirarmos as dúvidas. Telefone. Damaris. Um abraço.”

Meu coração disparou. Era a Damaris, minha amiga e companheira da Legião da Maria, na Paróquia S.C. de Jesus, na década de 60.

Liguei imediatamente, conversamos, choramos e daí em diante mantivemos contato por email e telefone, até que combinamos de nos encontrar na Casa das Rosas, no encontro de abril, do vivasp.com. Conversamos bastante, colocamos mais de quarenta anos de nossas vidas em dia. Pura emoção!

Roque e Rita Petroni foram seus padrinhos, sobre os quais escrevi, assim, repassei seu e-mail para Gabriel Petroni (que foi meu aluno), filho deles, que por sua vez buscava informações para escrever sobre a mãe. Recebi então esta mensagem do Gabriel:

 “Já entrei em contato com a Damaris, já conversamos, me contou muitas coisas que eu não sabia, ficamos de nos encontrar. Valeu !!! A tempo, preciso de depoimentos seus para adicionar a meus escritos.Acho que seriam valiosos. Bilé”.

O encontro entre os dois aconteceu e coincidentemente no mesmo dia, passando em frente à casa onde dona Rita morava, vi os irmãos Fábio, Cláudio e Gabriel no portão. Cumprimentei-os e Gabriel, emocionado, me falou do encontro.

Dias depois, Damaris me contou que pode, com emoção, lembrar-se durante a conversa, os bons momentos vividos junto à madrinha e o quanto de bem ela fez pela afilhada (como para tantos outros).

Damaris ficou fã do vivasp.com e apareceu no encontro seguinte, e, ao término, convidei-a para participar do “Orar cantando”, que aconteceria a partir das 20h, na igreja.

Ao chegarmos encontramos minha amiga, irmã Viviana e apresentei-as. Conversa vai, conversa vem, falando de nossas andanças pela vida, irmã Viviana disse que as freiras, também mudam muito, segundo as necessidades de suas ordens, assim, ela que é de Guarapuava no Paraná, já morou em Osvaldo Cruz interior de SP, etc...

 Ao ouvir o nome Osvaldo Cruz, Damaris diz que tem lá alguns parentes – tio, primos... E um pouco mais de conversa vai, conversa vem, as duas descobriram que irmã Viviana era a enfermeira no abrigo de idosos, naquela cidade, onde seu João, 100 anos, tio de Damaris, solteiro e sem filhos, mora. E mais, irmã Viviana era quem cuidava dele enquanto lá estava, foi quem o encaminhou para a cirurgia de catarata e quem o acompanhou em todo o processo de recuperação.

Lágrimas brotavam nos olhos daquelas duas mulheres, tão diferentes, estranhas até então e agora unidas por um afeto comum e encantadas com as coincidências. E eu ali, de boca aberta, feliz e emocionada, por ser, de certa forma, responsável por aquele encontro e aquelas  recordações.

Não houve o “Orar cantando”, o padre estava gripado, assim decidi dar uma carona para Damaris até a sua casa, no bairro de Cidade Dutra. Agora o melhor: Ela morava na mesma rua onde morei quando me casei. 

Deixei-a em casa, dirigi por alguns metros e lá fiquei parada diante daquela casa, construída com tantas esperanças, onde tive e perdi minha escola e onde minha filha nasceu. Aí foi demais, desatei a chorar no meio da escuridão, com vista ainda, para o Autódromo de Interlagos.

Em maio de 2009 Damáris faleceu depois de uma longa e dolorosa luta contra o câncer.

sexta-feira, 16 de março de 2012

QUERO MORRER LÁ PERTO DE CASA!

Segunda feira, dia 12 de março, levei meu pai ao pronto socorro por conta de dor aguda na face, degeneração dos nervos trigêmeos. PS de um hospital, que não é de primeira linha, mas é tradicional e atende pelo nosso plano de saúde.

Na triagem, depois de explicar tudo ao enfermeiro, ele me olha estranhamente, titubeia e escreve alguma coisa. Entrega o termômetro na mão do meu pai, que treme e com a outra segura a bengala sem saber o que fazer. Mais um pouco e pergunta:

 - A senhora disse que ele tem tri... O quê?!

Encaminhado para o clínico, é acomodado numa maca no pronto atendimento e bem depois a atendente de enfermagem aparece para fazer a punção na veia para colocar um acesso. Espeta a agulha instala o acesso e nada sai nem entra. Ela revira a bandeja cheia de embalagens, luvas, etc, de outro atendimento, em busca de alguma coisa. Olha na maca, olha no chão. Nada. Tenta de novo injetar água destilada nada!

 Comento:

 - Será que perdeu o acesso?

 -É, vou chamar o rapaz.

O rapaz, que devia ser um enfermeiro “mais graduado”, tira o acesso e olha a agulha. A adorável mocinha não havia tirado a parte interna, que fecha a passagem até a colocação do acesso  (Devia ser isso que procurava). Olham um para o outro e disfarçam...

Pergunto ao “rapaz”:

- E as luvas?

Bem, foi tanta justificativa sem propósito, que nem vale a pena comentar.

Nesse momento, lembrei-me do que meu pai sempre diz, quando se fala em internação hospitalar:

 - Quero morrer lá perto de casa!

 Essa experiência levou-me a resgatar um texto que escrevi em setembro de 2005, para o www.vivasp.com, que posto abaixo.

 “Um zero – A diferença entre a vida e a morte


Hoje enquanto fazia o jantar, escutava o Ney Gonçalves Dias berrar naquele seu programa sensacionalista muito apreciado por meu pai, a notícia do caso da menininha que faleceu no Hospital do Mandaqui, após receber soro glicosado a 50% quando deveria ser 5%. Um pequeno engano, apenas um zero a mais que determinou o fim de uma vida. 


Imediatamente lembrei-me de certa vez em 1995, quando de ônibus subia a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e algumas atendentes de enfermagem do Hospital Brigadeiro entraram e duas sentaram-se no banco atrás do meu. 


Chamou-me a atenção quando uma delas perguntou se a outra havia conseguido entender aquelas continhas de regra de três, ensinadas no curso. A outra respondeu que eles tinham ensinado esse negócio, mas que ela não tinha entendido nada. A primeira perguntou então como é que ela calculava a medicação de acordo com a variação do peso do paciente. A segunda simplesmente respondeu que “calculava mais ou menos”. A primeira riu e disse que não podia ser mais ou menos, que ela devia aprender a fazer a regra de três, que dava certinho."

Todas essas ocorrências são resultantes de anos de descaso com a Educação e decadência do ensino público que presenciei acentuar-se expressivamente nos meus últimos anos de carreira e à falta de qualificação profissional. Mais ou menos já está bom demais.

Prioriza-se a quantidade em detrimento da qualidade. A educação é reduzida a números para satisfazer
às estatísticas de erradicação do analfabetismo a ser apresentada aos financiadores estrangeiros.

Convivi, no pouco tempo que trabalhei no setor privado, com diversos funcionários que, com o ensino médio completo, não eram capazes de escrever corretamente uma lista de alimentos e produtos de cozinha.

O pior é quando esses oriundos do ensino público vão parar em setores em que o saber ler, interpretar e calcular faz a diferença entre a vida e a morte.


terça-feira, 13 de março de 2012

É o extermínio!

12 de março, dia de Santo Inocêncio.

Santa inocência, isso sim, a minha, quando achei que a segunda feira ia ser um dia de muito trabalho. Muito? Não, ainda precisa ser inventada a palavra para descrever o que foi a minha segunda feira. Minimizando diria que vivi as 24h da fúria.

Saio logo cedo para comprar uma peça no Morumbi enquanto fazia hora por causa do rodízio. Antes, abasteço o carro e vou à farmácia. A maquininha do Mastercard avisa: “cartão inválido”. Inválido como, se acabei de pagar o combustível? Pago em dinheiro, o dinheiro que era para comprar a peça, e, com a pulga atrás da orelha, começo, ali mesmo na farmácia, a via sacra para falar com o banco.

Muitos minutos depois e diversas tentativas erradas de acesso, sou informada que não havia nada com o cartão. Espumando, antes do final rodízio, volto ao caixa que já me esperava com um sorriso para dizer que era problema com o sistema da Mastercard.

Conclusão: não comprei a peça, fui até uma agência do banco para sacar e como São Tomé, conferir o cartão. Pronto. Já havia passado a hora do rodízio e sigo para o ap. para uma faxina geral. Preciso dele limpo e desocupado de tranqueiras.

Não vou descrever a faxina, seria literalmente cansativo, pois há uns seis meses não ia lá. Só digo que entre os guardados estava a roupa com que meu filho morreu executado, a parte que a polícia devolveu, o que interessava não veio. Há 12 anos e meio preciso me desfazer daquilo. Ontem foi o dia. Chorei tudo o que tinha direito e dá-lhe limpeza.

Não almocei, trabalhei duro e quando entrei no carro depois do banho tomado, pensei: "Que bom, fiz o que precisava, agora é só chegar a casa, cuidar do pai, comer muito, dar uma passada no facebook e DESCANSAR assistindo a um bom DVD.


Santa inocência! Era de novo hora do rodízio e esqueci completamente. Acho que fui flagrada por umas seis câmeras. Seja o que Deus quiser, estava na rua, precisava vir para cuidar do meu pai que estava só.

Ao chegar próximo de casa, parecia que havia passado um furacão. As ruas pareciam praças de tanta planta amontoada. Era preciso desviar. Em casa, 300m² de área forrada de verde e o telhado do terraço onde trabalho destruído. Abri a porta da cozinha, com medo do que fosse encontrar. Graças a Deus, nada além do susto.


 

Já era mais de 22h quando finalmente consegui separar o joio do trigo, nos meus materiais, separando, jogando, lavando.

 

Balanço de hoje: mais de 1000 litros de lixo recolhido, a maior parte pela “santa” Maria, minha doméstica querida, minhas mãos feridas pelos cacos das telhas e eu, bem DESCANSADA, passei o dia, sem almoço de novo, com meu pai no Pronto Socorro. 


É o extermínio!