domingo, 15 de janeiro de 2012

Aprendendo a ensinar

Um antigo comercial dizia: " O mundo gira e a Luzitana roda". Acrescento: "e eu não saio do lugar..."

Em 1963, cursava o segundo ano do Curso Normal e era catequista na Paróquia do S C de Jesus, na Av Morumbi, Brooklin e foi ali que graças ao Pe. Bruno Turatto enfrentei minha primeira turma de alunos, no Curso de Alfabetização de Adultos, que funcionava numa sala da igreja.

O trabalho era voluntário, rendendo apenas pontos, o curso era mantido pelo governo do Estado, que fornecia o material didático e fazia a supervisão por meio da 8ª Delegacia de Ensino. Nossa supervisora na época era dona Zulmira e a delegacia localizava-se na atual av. Vereador José Diniz, próximo ao balão do bonde.

Assim, lá fui eu, com 17 anos, salto alto, roupa sóbria para parecer mais velha, brincar de professora diante de uma classe de 1ª série, com 30 alunos, onde o mais novo tinha 18 anos e o mais velho 44.

Lecionar sempre fora meu sonho e lecionar para aquela turma de adultos empenhados em traçar as primeiras letras apesar do cansaço da jornada trabalhada, era a realização do sonho.

Operários da construção civil, domésticas, vigias, ajudantes diversos, olhares atentos, sentados à minha frente, naquelas carteiras inadequadas, absorviam cada palavra, cada gesto meu, e a cada palavra decifrada, se emocionavam como crianças.

O mais velho, seu Alvin, um negro enorme, era motorista de caminhão em um depósito de materiais de construção, bem longe do Brooklin. Chegava sempre atrasado, meio alcoolizado e envergonhado. Um dia, após faltar uma semana, apareceu para se despedir. O caminhão morrera sobre a linha do trem e fora atropelado, só restando a cabine, por sorte, com ele dentro. Foi despedido e voltava para sua terra, Minas Gerais.

O mais novo, João, um jovem delinqüente, oriundo da favela do Buraco Quente tinha um caderno de desenho e rascunhava nele o tempo todo. Quando eu solicitava suas lições, me mostrava os desenhos pornográficos que fazia. Desenhava bem, um talento desperdiçado. Como todas as tentativas de fazê-lo entender que seu comportamento era inadequado foram em vão, acabou sendo expulso do curso pelo padre diretor.

Os outros alunos, com exceção do Carivaldo que até o fim só lia t–a = ta / t - u = tu / tatu, terminaram a Cartilha Caminho Suave e receberam o primeiro livro em outubro, com direito à festa, comes e bebes.

Foi uma experiência enriquecedora e determinante na minha vida, pois ao aprender alfabetizar com aquela turma de adultos, decidi tornar-me professora alfabetizadora e o fui até o fim de minha carreira.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Minha madrinha de Batismo

Fui batizada no dia 6 de janeiro de 1946. É dessa data a foto que ilustra o texto.

Minha madrinha era uma gaúcha, filha de escrava com português. Era mulata, alta, talvez da minha altura, cabelos levemente crespos. Quando jovem, sofreu muito com as insanidades da mãe, que bebia e tinha distúrbios mentais, a ponto de despejar o urinol sobre a cabeça de seresteiros que em noites enluaradas faziam serestas à sua janela, matando-a de vergonha.

Veio para São Paulo e casou-se com um belo jovem filho de portugueses, loiro de olhos azuis. Tiveram cinco filhos, todos tão diferentes um do outro, quanto o próprio casal. O primeiro Roberto, não conheci, morreu antes do meu nascimento, era negro, como seu ídolo no futebol: o Baltazar e esse era seu apelido no time da turma da criançada da Vila Indiana. Arrancou um dente, jogou futebol escondido da mãe – que estava no trabalho – a tarde toda, debaixo de um sol escaldante. Teve febre alta e foi constatado meningite. Quando o antibiótico chegou ao aeroporto de Congonhas ele já estava sendo velado. O segundo, Antonio, moreno, participava de campanhas políticas e acabou sendo agraciado com o cargo de fiscal de feira na eleição em que seu candidato saiu vitorioso. O outro, João, louro sarará de olhos azuis, era, com a mãe, padrinho da minha irmã Jussara.

Depois vinha a Cida, única filha mulher, morena e linda e por fim o Getúlio, que tinha esse nome em homenagem ao então “Pai dos Pobres”, Getúlio Vargas, que minha madrinha venerava, tanto que sempre manteve um retrato do ditador/presidente, num quadro, na parede da sala. Foi quando amamentava esse menino, no início da década de 40, que estreitou seus laços de amizade com minha mãe, cuja família já conhecia do bairro de Indianópolis.

Nessa época, dona Izabel, assim se chamava minha madrinha, era ama de leite de um menino filho de uma família judia do bairro. Chegou até eles por indicação do Dr. Maurício, pediatra da Cruz Vermelha, ali na atual Avenida Ruben Berta. Contava ela, que ao apresentar-se à mãe do garoto, prematuro, que se não se alimentasse de leite materno morreria, a mãe começou a chorar compulsivamente. Ela não entendeu nada, mas, mais tarde, soube através da própria mãe, que naquele momento temera que seu filho sendo amamentado por uma negra, se tornasse negro também e na manhã seguinte foi ao consultório do pediatra para tirar essa dúvida, fazendo-o rir muito. Tornaram-se amigas e minha madrinha sempre contou com a ajuda daquela família.

Como a patroa precisava de alguém para fazer-lhe companhia e ajudar com os cuidados do pequeno Bernard Claude, dona Izabel indicou minha mãe para a tarefa, que lá ficou até 1943 quando a família se mudou para a Brigadeiro Luiz Antonio e ela, estando para se casar, não acompanhou.

Dona Izabel e minha mãe permaneceram grandes amigas. Ela foi testemunha do casamento civil de minha mãe e quando nasci foi a escolhida para madrinha de batismo. Foi também madrinha de batismo da Jussara, minha irmã mais nova e de Crisma da Sid, a do meio, pois como concordavam as duas comadres, ela deveria ser madrinha de todas nós, tão grande era a amizade e consideração entre elas.

Enquanto viveu, sempre nos visitou atenta ao nosso desenvolvimento, presenteando-nos nos natais e aniversários, alegrando-se com nossas alegrias e solidarizando-se com nossas dificuldades. Foi ela também, junto com minha madrinha de Crisma, testemunha de meu casamento civil.

Lembro-me que todas as vezes que vinha em nossa casa, trazia um delicioso bolo de fubá com erva-doce e canela com açúcar por cima. Jamais experimentei um bolo de fubá tão bom como aquele. Embora tivesse apenas um rim, tomava caipirinha e cerveja, quando saía com as amigas. Curtir as amigas, sair a passeio ou às compras com elas, sempre se constituiu para ela motivo de grande prazer.

Meu padrinho faleceu quando eu tinha 4 anos, vítima de um infarto. Apenas me lembro dele abaixado, segurando minhas mãos, com o rosto bem próximo ao meu e aqueles lindos olhos azuis olhando os meus e dizendo que crianças têm o hálito dos anjos. Depois me mandava recitar a “Batatinha quando nasce”, que eu sabia de cor desde meu primeiro ano de vida e sorria satisfeito. No dia de seu velório, realizado em casa, me lembro de que as mulheres mais velhas não queriam deixar minha mãe, grávida, e eu por ser criança, vê-lo morto, mas como em nossa família nunca houve esse tabu, minha mãe levou-me para vê-lo pela última vez, mas não me lembro do que vi.

Depois disso, a vida de minha madrinha virou uma verdadeira batalha para criar os quatro filhos. Lavava, passava, fazia faxina, fazia crochê para vender e salgados para bares e restaurantes. Conseguiu fazer deles, pessoas de bem, honestas e trabalhadoras, que a apoiaram na velhice.

Quando idosa, embora humilde, vestia-se bem, sempre com roupas de cores alegres. Usava baton bem clarinho, pó de arroz Cashemere Bouquet e mantinha os cabelos, que eram bem curtos e completamente brancos, sempre com um tom azulado ou lilás, que realçava sua cor e dava-lhe um ar de distinção. Tinha bom gosto ao escolher suas águas de cheiro o que fazia com que fosse muito agradável abraçá-la.

Tinha escolhido e bem cuidado no guarda-roupa, o vestido longo com que deveria ser enterrada e um pedido à família: que não faltassem orquídeas em seu velório.

Pouco antes de ver o neto que ajudou a criar formar-se médico, faleceu devido a um câncer no estômago.

Ela vive em nossos corações, seja pelo tecido com que nos presenteou em determinado Natal e assim tivemos vestidos novos, seja pelo sagu de abacaxi que fazia e era a única coisa que minha mãe não gostava, ou pelo café, que gostava de tomar tirado diretamente do coador, fumegante... ou aquela toalha de crochê, que ainda resiste ao tempo... tantas pequenas coisas, que é difícil que se passe um dia sem que nos lembremos dela.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

MOTIVAÇÃO

A atitude certa para começar o Novo Ano

Daniel Godri

Eu gostaria de mostrar para vocês uma sugestão de um líder fantástico, de um modelo fantástico:

Eu não quero falar da parte religiosa, da parte espiritual dele, nem é preciso!
Quero falar da parte humana.

Se você quer ser um funcionário fantástico, aprenda com esse homem. Esse homem ganhou uma missão do chefe dele, do líder dele, do pai dele, foi lá e cumpriu. Ele não quis saber se era fácil ou era difícil: ele foi lá e cumpriu. Você já viu alguém mais comprometido do que esse homem?

Se você quer ser um funcionário extraordinário aprenda com esse homem. É o funcionário mais extraordinário que alguém poderia ter.

E, se você quer ser um líder fantástico, se você quer ser um líder muito além da excelência, aprenda com esse líder.

Esse homem pegou 12 funcionários sem talento nenhum e fez deles pessoas que mudaram o mundo. Ele era um líder tão fantástico que conseguia lapidar o que as pessoas tinham de bom. Ele tirava o que as pessoas tinham de bom e fazia com que acreditassem que podiam ser melhores.

Esse líder conseguia fazer as pessoas se sentirem amadas. Nunca funcionários se sentiram tão amados como os funcionários desse homem.

E esse homem era um líder fantástico. Ele não ficava no ar condicionado, na tenda, não. Ele ia junto, ele acompanhava, ele sentia o mercado.

Você pode até não acreditar nesse homem, mas nós temos que admirar esse homem.

Esse homem é extraordinário. Ele conseguiu colocar o sonho no coração dos funcionários. Num lugar onde os funcionários não tinham nem condições de sonhar, nem de ter esperança, Ele foi lá e disse:

- Nós podemos mudar o mundo!

O nome mais procurado na internet mundial é o desse homem - Jesus Cristo - por que ele é um sucesso absoluto.

Vai ter dia em que você vai escorregar, vai ter dia em que você vai cair, e o que Ele veio lembrar é isso: que cada um de nós precisa acreditar mais em si mesmo, acreditar no país onde vive, acreditar na sua empresa, no seu trabalho, acreditar na equipe e acreditar em Deus.

Quando você acredita em Deus você pode cair um milhão de vezes. Deus vai te levantar um milhão e uma. Por que pra Deus não importa quantas vezes você cai, pra Deus importa quantas vezes você quer levantar.

E, acredite: você pode ser muito melhor do que você já é. Procure o topo, por que produtividade, qualidade, excelência são obrigações nossas. Deus nos fez para isso, pra sermos cada vez melhor, pra buscarmos o topo.

DANIEL GODRI: Presidente do IBMV - Instituto Brasileiro de Marketing e Vendas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Lembranças de mais um Ano Novo

A quatrocentona que nunca adormece
veste-se de negro e paetês,
para, no próximo minuto,
esquecer tudo e explodir festiva
brindando a Esperança que chega
com o encontro dos ponteiros.

Oculto nas trevas, solitário,
o trem cruza a grande urbe
agasalhando os ausentes da festa.

Tim...Tim! (01/01/2007)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ANO VELHO, ANO NOVO...

Quando morávamos em Moema, a chegada do Ano Novo tinha um significado todo especial e místico para mim.

1947
Minha mãe e eu no portão da casa dos meus avós na Alameda dos Arapanés

Lembro-me que no dia trinta e um de dezembro, logo ao levantar-me, minha mãe já falava que naquela noite veríamos o Ano Novo chegar e eu ficava o dia inteiro esperando ansiosamente pelo escurecer. E como demorava a chegar aquela noite!

À tardinha, íamos para casa de meus avós, na Rua Arapanés quase esquina com Macuco, era lá que esperávamos o “Reveillon”.

Não se fazia festa. Reuníamo-nos na sala de jantar, conversando e comendo petiscos até à meia-noite.

Nessa hora, íamos todos para o portão. Meu pai colocava-me sentada sobre o pilar de sustentação do muro, e eu, curiosa, fixava meu olhar no breu da rua, a espera do momento em que o Ano Velho apareceria lá no topo da ladeira, carregando nas costas o Ano Novo, pois como diziam meus pais, ele era ainda muito novo e não sabia andar.


1949
Sentada no pilar do portão
Alameda dos Arapanés

Quando os fogos começavam a pipocar nas alturas, lá vinham eles: um homem de meia idade, longas barbas grisalhas, carregando nos ombros um jovem, que animado agitava-se admirando os fogos.

Na escuridão da noite, iluminada somente pelo eventual brilho dos fogos de artifício, o som dos apitos das fábricas e das pancadas das barras de ferro contra os postes, aquela imagem tornava-se mágica.

Ao passar pelos raros portões, onde as famílias reunidas comemoravam a seu modo o momento, o Ano Novo e o Ano Velho acenavam cordialmente as mãos num cumprimento silencioso. Nesse momento, meu coração disparava. Aquele era o ápice da festa: o Ano Velho se despedindo e apresentando-nos o Ano Novo que chegava.

E eles nos saudavam! Éramos personagens atuantes daquele rito místico de passagem de ano! E eu, na inocência dos meus primeiros anos de vida, timidamente levantava um pouco o braço e temerosa diante da grandeza daquele mistério acenava levemente a mão, trêmula de emoção.

Em dezembro de 1949, mudamos de bairro. Nunca mais vi o Ano Velho e o Ano Novo. Anos mais tarde, diferentemente de mim, que guardava aquela imagem inexplicável, em minha memória, meus pais já haviam se esquecido do fato, quando em um final de ano, na hora dos fogos, perguntei-lhes do que se tratava essa lembrança difusa que povoava minha mente nessa data.

Aí então, pude entender que o Ano Velho era um senhor de meia idade que, na noite da passagem do ano, colocava sobre os ombros o irmão mais novo - o Ano Novo - um jovem paraplégico, ambos sapateiros do bairro, e saíam pelas ruas de Moema, para que ele pudesse participar das festividades daquela noite especial e assistir à queima de fogos.

Ainda hoje me pergunto de onde meus pais tiraram a idéia de me fazer acreditar naquela fantasia de fim de ano. Uma coisa porém é certa: todos os anos, ao se aproximar a meia noite do dia trinta e um de dezembro, esteja eu onde estiver, lembro-me do vulto simbiótico emoldurado pela luz dos fogos, sinto saudades da minha inocência e me emociono com a certeza de ser eu a única pessoa no mundo a ter o privilégio da lembrança dessa fantasia particular.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Peru de Natal

Mário de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...


Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.


O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23..

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mais uma vez é Natal...


...e como em todos os anos, me reporto à infância, onde o Natal era o que de melhor a vida podia oferecer.

Mesmo sendo meu pai operário de fábrica e minha mãe uma modesta dona de casa, sempre tivemos natais maravilhosos, plenos de fantasias, desejos realizados e com profundo significado.

De nossos poucos vizinhos, éramos as únicas crianças que acreditavam em Papai Noel. Meus pais não tiveram medo de correr o risco e contemplar-nos com essa fantasia.

Quando o fantasma do desemprego instalou-se em nosso lar e parecia que pela primeira vez o Natal seria diferente, eles, com sua criatividade e amor garantiram a realização de nossos sonhos.

Meu pai, na pequena oficina de meu tio, trabalhando noites a fio até altas horas e minha mãe, segurando-nos dentro de casa, para que não “atrapalhássemos” o trabalho dele, garantiam os presentes.

Na manhã da Grande Festa, debaixo de nossa árvore (de cipreste vivo), aguardavam-nos exclusivos brinquedos confeccionados com madeira, tecidos e outros materiais que circulavam em nossa casa. Papai Noel trouxera. Não sei como, mas não duvidávamos disso.

Acho que meus pais, em sua simplicidade, entenderam o verdadeiro sentido do Natal. Burlaram as dificuldades, os apelos consumistas e as crises domésticas formando em nós, graças à força de seu amor, um conceito sólido sobre o significado dessa festa e da própria vida.

Este ano, já arrumei a árvore nesta casa que é a de meus pais, pela primeira vez sem a participação da minha mãe, mas toda dedicada a ela em memória de todos os magníficos natais que me proporcionou.