sábado, 8 de novembro de 2014

O sabor das lembranças

Hoje me deu uma vontade louca de comer Mantecal. Não sei se foi porque sonhei com a minha mãe na cozinha mexendo nas panelas ou se bateu saudades da avó Asunción, que falava uma mistura de português com castelhano, muito engraçada, só sei que comprei os ingredientes e botei a mão na massa.

É um dos doces mais simples de fazer, doce de pobre, como dizia a minha mãe, pois segundo ela, era o único doce de que se lembrava da infância vivida nas fazendas de café, em Itápolis, interior de São Paulo, onde seus pais, imigrantes espanhóis eram colonos. Ela falava também do pão, este de sal, caseiro feito pela mãe, no forno de barro, primeira coisa a ser providenciada quando chegavam a uma nova moradia.

Mantecal, doce feito com “manteca”, ou seja, manteiga, gordura, nata, segundo o dicionário espanhol. Mas em nossa família ele sempre foi feito com gordura suína, a original e é assim que eu gosto.  É assim que ele tem gosto de infância pra mim. E sem enfeites por cima, estes lhe alteram o sabor. Gosto deles simples.

Enquanto fazia, lembrava-me da minha avó. Não tivemos muito convívio, ela e meu pai não se davam bem, mas de vez em quando nós nos visitávamos. Não parecia uma avó segundo os padrões de então. Era muito ativa, trabalhou fora até idade avançada e depois sempre estava na casa de um ou de outro ajudando nas dificuldades do dia a dia. Gostava de “bater pernas” como dizia.

Viúva há muito tempo, casou-se em segundas núpcias com um senhor italiano, quieto, retraído e a mim me parecia que nada tinham em comum. Impressões de criança...

Viúva novamente voltou a morar com o único filho e aos 75 anos faleceu devido à hemorragia de uma úlcera, ao ser atendida no pronto socorro. Foi em 1975, eu morava em Mogi das Cruzes, tinha três filhos, acabara de me mudar para uma nova casa onde muita água rolaria por debaixo da ponte, depois, porque naquele momento, era agosto e o poço estava seco.

Lembranças em dia, agora é matar a vontade e saborear os Mantecais com um bom chá de hortelã.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A ÚLTIMA VIAGEM

Naquela manhã de segunda-feira, Marco Aurélio acordou muito cedo, antes do alarme do rádio-relógio disparar. Sentou-se na cama, espreguiçou-se demoradamente, sentindo cada molécula de seu corpo dolorido despertar. Achou-se leve, estranhamente leve. 

Vestiu-se com esmero. Seria um dia muito especial. Na cozinha, enquanto saboreava o delicioso café que a mãe deixara preparado, estranhou o silêncio da empregada. Sentada a um canto, cabisbaixa, parecia não notar sua presença. Nem respondeu ao bom dia amistoso que lhe dirigiu. Como nos últimos dias atormentara a pobre, com seu comportamento imprevisível e suas explosões de mau humor, entendeu seu silêncio como uma atitude defensiva. Afinal, ela devia estar com receio até de olhar para ele. 

Antes de sair, olhou-se mais uma vez no grande espelho da sala de jantar, analisando cada detalhe de sua aparência. Mesmo magro e abatido, pelo excessivo consumo de drogas e bebidas, ainda era uma bela figura de adolescente, no auge de seus dezoito anos. “- Um partidão!”- como diria a avó coruja. 

Saiu de casa pensando em como essa vaga de operador de micro, que o pai conseguira na empresa de um amigo, poderia ser o primeiro passo para a realização de um antigo sonho: trabalhar com computação gráfica numa grande agência de publicidade. 

No caminho refletia sobre sua vida. Mudara tanto nas últimas semanas! Voltara a estudar, conhecera a Mara, uma “verdadeira princesa”, e hoje começaria a trabalhar, fazendo o que mais gostava. Já pensava até em pedir ajuda aos pais, para quiçá, fazer aquele tratamento que eles tantas vezes sugeriram... 

Uma coisa era certa: deixaria os amigos das farras. A última noite havia sido terrível! Bebidas, muito “fumo” e alguns “tiros”. Enlouquecera. Em sua mente, a lembrança dos móveis movendo-se pelo quarto e da sujeira espalhada pelo chão andando de um lado para outro misturava-se com os risos frenéticos dos amigos - amigos?! - que se distanciavam em câmera lenta, assustados, enquanto lhes estendia os braços, apavorado implorando ajuda. Depois... um vazio imenso! 

Caminhava tão absorto em seus pensamentos, que se surpreendeu ao chegar ao seu destino, tão depressa e sem cansaço. Estranhou... Em lugar de um edifício de escritórios, encontrou apenas um grande portão de ferro, fechado. Conferiu o número. Estava certo. Procurou uma campaínha, um interfone. Nada. 

Apesar da névoa daquela manhã de inverno, pôde perceber por trás daquelas grades, algumas pessoas que caminhavam lentamente, cabisbaixas. Talvez chorassem. Pensou até ver entre os primeiros do cortejo, seu pai, sua mãe, parentes, amigos (os verdadeiros) que há muito não via. Tentou entrar, mas o portão não se abriu. Chamou pelas pessoas lá dentro, ninguém o atendeu. 

Confuso, voltou-se para procurar um telefone público e, quem sabe, ligar para o escritório do pai e esclarecer aquela situação, quando viu à sua frente, em uma banca de jornais, estampada na primeira página de um jornal sensacionalista, sua foto e uma manchete em letras garrafais:

“MÃE ENCONTRA O FILHO MORTO, AO ABRIR O QUARTO, DOMINGO DE MANHÔ.

A Galeria Prestes Maia


Vale do Anhangabaú 1970

A Galeria Prestes Maia é uma passagem subterrânea que liga o Vale do Anhangabaú à Praça do Patriarca e a memória que tenho é dos tempos que passava por lá, antes das reformas dos anos 80. 

Um caminho estratégico para quem ia da zona sul de São Paulo para o centro.   Os pontos dos ônibus ficavam no Vale, acompanhando a lateral da Praça Ramos de Azevedo de onde se avistava o Teatro Municipal, a Agência Central dos Correios e o Viaduto Santa Efigênia.  Boa parte desses pontos estavam sob o Viaduto do Chá.


A Praça do Patriarca, com a tradicional igreja de Santo Antônio, dava acesso às principais ruas do centro, onde se encontrava praticamente de tudo que precisávamos. E na época não existia aquele portal que nada tem a ver com o estilo dos prédios daquela área.


Praça do Patriarca - foto de Benedito J Duarte

Geralmente ia ao centro uma vez por mês para comprar o passe escolar. A agência da CMTC ficava dentro da Galeria Prestes Maia. Nessas ocasiões aproveitava para visitar as exposições itinerantes que ali eram montadas.  Raros momentos de cultura e lazer. Era também ali, que acontecia periodicamente a feira de ciências com exposição de trabalhos de alunos das escolas estaduais. Por dois anos me orgulhei de ver ali expostos desenhos feitos por mim da anatomia de algum animal. Gostava muito de desenhar minuciosamente o interior dos bichos, que encontrava em livros da biblioteca da escola, ampliava e reproduzia sobre cartolina nas cores originais, causando admiração nos meus mestres e colegas.

Saindo da Galeria Prestes Maia numa tarde em que fui comprar o passe escolar, aguardava na calçada para atravessar as pistas sob o viaduto, quando ouço um baque seco, como um coco se quebrando. Olho para o lado e, a poucos metros de onde me encontrava, um homem, com a cabeça achatada, se contorcia agonizando.  Havia se jogado do Viaduto do Chá. Um suicida.

Eu devia ter meus 14 ou 15 anos, antes disso não ia só ao centro, mas só me lembro de ter corrido para longe dali, procurado outro lugar para atravessar e que já dentro do ônibus na volta para casa, tremia muito.

Foi ali, também, na Galeria Prestes Maia, que em 1964, soube que um golpe militar havia acontecido durante à noite, ao indagar sobre a presença de tanques fechando ostensivamente aquela passagem e me impedindo de comprar os passes.



Entrada da Galeria Prestes Maia no Vale do Anhangabaú 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

28 de outubro – Dia de São Judas Tadeu


A data me remete à década de 50, não sei ao certo o ano, sei que algumas crianças no bairro ficaram com hepatite, entre elas, minha irmã e o filho caçula da família vizinha e amiga. Ficaram abatidos e até com a parte branca dos olhos, amarela.

Minha irmã recuperou-se rápido, não sei qual o tratamento, só lembro que ela devia fazer repouso. 

Toninho, o menino vizinho, teve complicações sérias, foi hospitalizado e um dia, soubemos que estava muito mal, com o fígado aumentado (lembro-me dessas palavras que me impressionaram) e que segundo os médicos não sobreviveria àquela noite. A tristeza era grande, os adultos choravam e nós crianças estávamos impressionadas com as conversas veladas. Meu pai foi para o hospital, para se solidarizar com os vizinhos, naquele momento de dor. 

A família era muito devota de São Judas Tadeu e foi naqueles dias que pela primeira vez ouvi sobre o santo, em fazer promessas e acender velas em sua intenção. Não tive dúvidas, fiz minha primeira promessa: se o Toninho sobrevivesse, compraria uma vela do tamanho dele e acenderia na igreja de São Judas. 

No hospital, dona Meireles, a mãe do menino , como todos os parentes próximo, também fez a sua promessa e na manhã seguinte, ao retornar para casa, meu pai disse que inexplicavelmente, na madrugada, quando todos esperavam o desfecho fatal, Toninho apresentou uma melhora e a febre cedeu para alívio de todos. 

De volta para casa, continuou o com o repouso e o tratamento por longo período de tempo. Muitas vezes acompanhei minha mãe, quando ia à casa dele para aplicar injeção. E, além de cumprir a minha promessa, fiz parte da promessa de dona Meireles, que era realizar a Primeira Comunhão do Toninho, na Igreja de São Judas e, como era fora de época, fui encarregada de ministrar-lhe as aulas de catecismo e acompanhá-lo naquele dia de muita alegria para todos.

Desde então, neste dia, lembro desse fato e agradeço ao bom santo, que foi apóstolo de Jesus, aquela graça e outras tantas alcançadas.

domingo, 19 de outubro de 2014

Obsessão por janelas e portas abertas

Janelas obstruídas pelo medo, como nossas vidas.






Uma casa, uma janela, um gato chamado Chico...



De dentro da Igreja Matriz de Santana - Itanhaém



Na antiga Câmara Municipal e Cadeia de Itanhaém


Ambas no interior do Convento N Sra da Conceição 

 Itanhaém



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Apego... Desapego...

De repente, os anos passam e você descobre que para viver não necessita – como os índios – mais do que vinte utensílios e o pior, ao cuidar do espólio doméstico e pessoal dos que se foram, você se dá conta do desgaste emocional e do trabalho que dá olhar item por item e decidir qual será o fim de cada um.

Tendo feito essa travessia por quatro vezes, espero sinceramente não ocupar aqueles que se incumbirão de mim no pós mortem, mais do que naquilo que se fizer necessário burocraticamente, mesmo porque, meu pensar é que para depois de mortos, devemos nos esforçar em deixar apenas boas recordações e quem sabe, por um breve período de tempo, um pouco de saudade. Mas a questão aqui é outra. 

Para mim, existe uma escala de apego às coisas de quem se foi. Aos poucos me livro delas, mas tem aquelas, das quais parece que jamais conseguirei me separar, mas o dia delas também chega e outras que guardarei para sempre. 

Com relação aos pertences dos meus pais já progredi bastante nos caminhos do desapego e, interessante é que ao mexer em suas coisas, acho caixinhas, potinhos, envelopes e gavetinhas, com quinquilharias, lembrancinhas e objetos de uso diário que de repente adquirem significados e, embora completamente inúteis, se estiveram por ali durante tantos anos, sinto que preciso preservá-los. 

Foi então que, organizando gavetas, caixinhas e potinhos, lembrei-me de um trabalho que vi certa vez e acho que encontrei a solução estética para os objetos do meu apego irracional. Reunidos num só lugar, devidamente tratados, serão “eternos enquanto eu dure”.

Denominei a primeira obra de “Lembranças” e à sua visão remeto-me a momentos daqueles que ela representa.

domingo, 5 de outubro de 2014

Uma cidade com memória



Quando meus filhos eram pequenos, às vezes, nas férias, íamos à praia, geralmente no litoral sul de São Paulo: Solemar, Mongaguá e Itanhaém, onde não retornava há mais de vinte anos. 




Como sou sócia da AFPESP, me propus a conhecer as colônias de férias que ela disponibiliza e no início do mês de setembro estive na unidade de Itanhaém, que já foi colônia de férias do extinto banco Mercantil, ficou abandonada por várias décadas, foi comprada e reformada pela Associação dos Funcionários Públicos e inaugurada há apenas dois anos. 

Tudo novo, bem cuidado. Atendimento de primeira. 


Foi estranho percorrer aqueles caminhos conhecidos e que eu acreditava estivessem mudados, deteriorados pelo progresso. Não. Itanhaém, onde a verticalização é proibida, o trânsito controlado pelo bom senso, sem nenhum semáforo, permanece uma cidade encantadora, preservada, com seu centro histórico muito bem cuidado e as praias limpas. Uma cidade com memória. 













Revisitei todos os lugares por onde passei com meus filhos e um pouco mais. Até achei a Sorveteria Samambaia, aonde íamos nos finais de tarde e meu pai, como ele mesmo dizia, completava uma caipirinha, tomando sorvete de limão após o aperitivo de pinga.