terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um tour por Santana de Parnaíba


Em 1997 participei com a escola onde lecionava, de uma excursão aos caminhos dos Bandeirantes. Fomos a Itu, Porto Feliz e Santana de Parnaíba. Nesta última cidade pudemos constatar a lamentável deterioração em que se encontravam os imóveis históricos, já tombados.


Cine Teatro

Na ocasião um grupo de universitários fazia levantamentos para a restauração, para a qual a verba já estava aprovada só faltando os trâmites finais.


Em 2006, sem esperar, eis-me de volta àquela cidade, com meus pais e minha irmã Jussara. Foi agradavelmente surpreendente encontrar as edificações restauradas, bem cuidadas, a Casa da Cultura funcionando com exposições e programação de atividades por toda parte.


Casa da Cultura

Alem das casas restauradas com fidelidade de estilo, ainda fomos encantados com o capricho dos moradores, que enriquecem com toques criativos suas próprias casas.


“A Igreja Matriz, também conhecida como Paróquia de Sant'Ana, é considerada o marco mais importante do município.

De acordo com os registros históricos, em meados de 1560, foi erguida na cidade a primeira capela, dedicada a Santo Antônio. A pequena igreja era feita de pau-a-pique e coberta de folhagens.


No ano de 1580, a segunda capela, dedicada a Sant'Ana, foi construída.

Em 1610 uma terceira capela foi construída, também por André Fernandes, e, em 1625, foi elevada a Matriz, hoje conhecida como Paróquia de Sant'Ana.A edificação atual data de 1882, e seu estilo é eclético.


É tombada pelo CONDEPHAAT.” (Texto pescado na Internet)


Bem próxima de São Paulo e de fácil acesso pela Rodovia Castelo Branco, a cidade que faz parte do circuito bandeirista se constitui em agradável passeio para quem curte história, com direito a almoço nos singelos restaurantes locais.


Delegacia de Polícia

Saiba tudo sobre a cidade histórica de Santana de Parnaíba.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sol, calor, Kibon e alegria, você vai ser feliz


“Tome um sorvete de massa na praça,
na corrocinha amarela.
E se quiser pode ser picolé,
na corrocinha amarela.
Sol, calor, Kibon e alegria,
você vai ser feliz.
Sinta o friozinho no nariz...”.


Alguém publicou no blog “Moema de tantas histórias”, da Marcia Ovando, um relato sobre a Gincana Kibon. Lembrei do jingle e viajei para um tempo em que a fábrica Kibon era ponto de referência aqui do Brooklin. Lembrei das visitas à mesma, convidada por funcionários de lá e o prazer de tomar um enorme Sunday, o meu sempre de chocolate, no amplo salão em meio aos tubos de refrigeração. Depois, como professora, as excursões com os alunos, que se lambuzavam com sorvetes e pirulitos e a alegria da criançada em poder desfrutar dessa oportunidade graciosamente.


Imagem do blog de Carlos Fatorelli

Hoje quando passo, nas minhas caminhadas, pela Rua Santo Arcádio, esquina com Roque Petroni Júnior, vendo naquele terreno os poucos entulhos que ainda restam da demolição da fábrica, sinto um aperto no peito com a constatação da descaracterização do bairro em nome do progresso e, se a Kibon me remete àquele friozinho gostoso aquecido pelo burburinho da criançada, ali, bem perto, quando passo pela Rua Barão do Triunfo, fecho os olhos e ainda sinto o cheiro quente do cacau exalado pela, não menos famosa Fábrica de Chocolates Lacta que vi, num intervalo de meio século, ser erguida do chão, a ele voltar como pó e dar lugar a luxuosos espigões. Mas sobre isso falo outra hora.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

“Domingo é dia, de pescaria ô... Lá vou eu de caniço e samburá.”

Para nós dia de pescaria é segunda-feira. Não pesco, não gosto de pescaria, não fico no pesqueiro, mas quase toda segunda-feira levanto cedo – meu pai já espera ansioso na mesa para o café – armo-me de boa vontade, rezo para o trânsito colaborar e lá vamos nós em direção a Itapecerica da Serra. Dezoito quilômetros cravados, de porta a porta.

Minha diversão é observar no trajeto as variações da paisagem urbana. Curto demais a miscelânea que é esta cidade. Aqui, menos com palavras e mais com imagens vou falar sobre essa experiência quase semanal, vivenciada em dois momentos: pela manhã quando levo o pescador e à tarde quando vou buscá-lo.


Vicente Rao, Roque Petroni Jr, Ponte do Morumbi, Marginal Pinheiros - lindamente ajardinada nesse trecho - até a saída para a João Dias. Ali, sigo à direita em direção a Itapecerica. Vila Andrade, Metrô Giovani Gronchi, Vila das Belezas, Jardim São Luís. Altos e baixos, conjuntos habitacionais populares, grande concentração demográfica.


Observo os cedrinhos, nesta época, floridos de um rosa pálido, que ameniza em alguns trechos, a feiúra do lugar.


Campo Limpo, amplo, moderno, que teve como seu bispo, Dom Emílio Pignoli, grande amigo em Mogi das Cruzes, sua primeira diocese. Metrô Capão Redondo. Uma infinidade de lombadas... Como esse lado da cidade cresceu!


Passando pelo campus da Universidade Adventista, ainda se vê ao fundo, a Indústria Superbom.


Chegamos ao Valo Velho (velho e feio!), último reduto paulistano antes de entrarmos em Itapecerica da Serra.


Daí pra frente, não é mais São Paulo, mas tenho que ir um pouco além e passo pela antiga porteira da Fazenda do Frigor Eder, cuja fábrica, na década de 60, localizava-se na Rua Izabel Schmidt, em Santo Amaro e empestava todo o bairro com o desagradável odor da produção das delícias ali fabricadas.


Finalmente o pesqueiro. Amplo espaço natural, mata, flores. Boa infra estrutura, proprietários senhor Paulo e dona Takako, uma simpatia!


Hoje foi mais um dia de aventura semanal, uma das grandes alegrias de meu pai aos seus 91 anos e 8 meses exatos nesta data.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

ANTES E DEPOIS

Hoje, por conta de uma notícia triste, mergulhei nas minhas próprias tristezas guardadas dentro do coração - como dizia uma sábia amiga: nossos problemas são problemas só nossos e a cara tem que estar sempre boa, ela pertence ao mundo – busquei este texto desabafo, escrito há muito e decidi compartilhá-lo, como forma de solidarizar-me com todos que choram suas perdas.

O corredor é estreito e mal iluminado. A atendente avisa:

- Tem muito sangue, tem certeza que quer olhar?

- Como saber se não olhar?

Ela abre uma porta pintada de branco, muito suja.

Apesar do frio daquela manhã de agosto, lá dentro é abafado. Mal consigo respirar.

A mulher, uma negra simpática e afável, com uma expressão lancinante de piedade noolhar, estende o braço pela porta aberta, tateia e acende uma lâmpada.

- Não acha melhor esperar alguém para acompanhá-la? Não vai se sentir mal?

- Pior é impossível. Preciso ter a certeza já!

Entramos. Ela na frente, eu atrás.

O cômodo mal iluminado, sem janelas, pelo menos se as tinha, não vi, não permite ver além do foco da lâmpada. O foco da lâmpada que ilumina um balcão de concreto aparente, creio eu, sobre o qual repousa um enorme volume preto.

Ela ainda me olha mais uma vez, com aquele olhar que dizia mais que mil palavras, dá um passo à frente, estende a mão sobre o volume e lentamente vai abrindo um zíper que parece não ter fim.

As batidas do meu coração me sufocam e ensurdeço. Meu corpo todo pulsa comandado por uma esperança que minhas entranhas avisam ser vã.

Ela dá um passo para trás para me ceder espaço.

- Pronto, pode olhar.

Não me lembro do que vi, pois como explicam os entendidos, o cérebro dispõe de mecanismos de defesa, que nos imunizam contra a realidade permitindo a preservação da sanidade. Não lembro, mas sei o que vi e por não acreditar, ainda peço para ver mais uma vez.

As pernas fraquejam. O cheiro de sangue quente me enjoa. Jamais vou esquecer aquele cheiro. Meu corpo estremece e a dor é tanta, que as carnes doem. Doem como se o sangue não conseguisse passar pelas veias e artérias.

- A senhora está passando mal? Quer alguma coisa, um café forte?

- Não, obrigada.

Respiro fundo, quase sem forças para sugar o ar, levanto a cabeça e com passos firmes vou até o posto policial e faço o que tem que ser feito: informo à autoridade de plantão, que aquele corpo perfurado de balas, ali recolhido como um entulho é meu filho, gerado e criado com extremo amor e arrancado de mim pela maldição das drogas.

Preencho o formulário sem sentir as mãos e saio sem rumo.

Tudo não leva mais de 15 ou 20 minutos, mas são os minutos que dividem minha existência em ANTES e DEPOIS.

Os sem-iPad


Autor:Luiz Felipe Pondé para Folha

Você sabia que agora existe em Londres o movimento dos sem-iPad? Coitadinhos deles. Quebram tudo porque a malvada sociedade do consumo os obriga a desejar iPads... No passado todo mundo era "obrigado" a desejar cavalos, tecidos de seda, especiarias, facas, tambores, ouro, mulheres...

Como ficam as pessoas que desejam, não têm, mas nem por isso saqueiam lojas, mas sim trabalham duro? Seriam estes uns idiotas por saberem que nem tudo que queremos podemos ter e que a vida sempre foi dura?

Esta questão é moral. Dizer que não é moral é não saber o que é moral, ou apenas oportunismo... moral. Resistir ao desejo é um problema de caráter. Um dos pecados do pensamento público hoje é não reconhecer o conceito de caráter.

Logo existirão os "sem-Ferrari", os "sem-Blackberry", os "sem-Prada" também? Que tal um "bolsa Blackberry"? Devemos criar um imposto para os "sem-Blackberry"?

Na Inglaterra, dizem, existem famílias que nunca trabalharam vivendo graças ao governo há gerações. É, tem gente que ainda não aprendeu que não existe almoço de graça.

Mas esse fenômeno de querer desculpar todo mundo da responsabilidade moral do que faz não é invenção de quem hoje justifica a violência em Londres clamando por justiça social na distribuição de iPads.

É conhecida a passagem na qual o "homem do subsolo" no livro "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski, abre suas confissões dizendo que é um homem amargo. Em seguida, alude à teoria comum de que ele assim o seria por sofrer do fígado. Logo, a culpa por ele ser amargo seria do fígado.

Ele recusa tal desculpa para sua personalidade insuportável e prefere assumir que é mesmo um homem mau. Eis um homem de caráter, coisa rara hoje em dia.

Agora, todo mundo gosta de "algum fígado" (a sociedade de consumo, o patriarcalismo, a Apple) que justifique suas misérias morais.

O profeta russo percebeu que as ciências preparavam uma série de teorias que tirariam a responsabilidade do homem pelos seus atos.

A moda pegou nos jantares inteligentes e hoje temos vários tipos de "teorias do fígado" para justificar nossas misérias morais.

Uma delas é a teoria de que somos construídos socialmente.

Dito de outra forma: O "sujeito é um constructo social". Logo, quebro loja em Londres porque fui "construído" para enlouquecer se não tenho um iPad. Tadinho...

Tem gente por aí que tem verdadeiro orgasmo com essa bobagem.

Não resta dúvida de que há algo verdadeiro na ideia de que somos influenciados pelo meio em que vivemos.

Por exemplo, se você nasce numa favela, isso não vai passar "desapercebido" nos seus modos à mesa, no seu comportamento cotidiano e nas suas expectativas e possibilidades na vida.

Mas aí dizer que "o sujeito é um constructo social" é pura picaretagem intelectual. Ninguém consegue ou conseguirá provar isso nunca, mas quem precisa de "provas" quando o que está em jogo são as ciências humanas, que de "ciência" não têm nada.

Esse blábláblá não só exime o sujeito da responsabilidade moral, como abre a porta para todo tipo de "experimento" psicossocial, político ou justificativa moral, que, na realidade, serve pra qualquer um inventar todo tipo de conversa fiada em ciências humanas "práticas".

Por que tanta gente adora essa teoria? Suponho que, antes de tudo, o alivie de ser você e coloque a "culpa" de você ser você no pai, na mãe, na escola, na vizinha, na sociedade, no consumo, na igreja, no patriarcalismo, no machismo, na cama de casal, no iPad, no diabo a quatro. Menos em você.

Temos aí uma prova de que grande parte das ciências humanas não reconhece o conceito de caráter.

Moral é exatamente você resistir a impulsos que outras pessoas, sem caráter, não resistem. Já leu Aristóteles? Kant?

A "culpa" do que hoje acontece em Londres não é do consumo. Homens sempre quebram coisas de vez em quando e querem coisas sem esforço. As causas podem variar. Hoje em dia, seguramente, uma delas é que muita gente está acostumada a um Estado de bem estar social que os trata como bebês.

A preguiça, sim, é um traço universal do ser humano.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sabedoria

Autor desconhecido

O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.

- "Qual é o gosto?" perguntou o Mestre.

- "Ruim " disse o aprendiz.



O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago.

Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então o velho disse:

- "Beba um pouco dessa água". Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou:

- "Qual é o gosto?”

- "Bom!" disse o rapaz.

- Você sente gosto do "sal" perguntou o Mestre?

- "Não" disse o jovem.

O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou sua mão e disse:

- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende aonde a colocamos.

Então quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido das coisas. Deixe de ser um copo. Torne-se um lago...




sábado, 20 de agosto de 2011

Esta casa velha e um hobby


No patamar da escada, onde haveria uma porta no projeto inicial, ficou um baixo relevo na parede. Nunca prestara atenção nisso, até que precisei de um lugar para acomodar as imagens que restauro. Um hobby. Foi assim: chegava na secretaria da paróquia e via aquelas imagens quebradas, lascadas, descoradas ou mesmo em bom estado, largadas ali por pessoas supersticiosas que têm receio de jogá-las, ou por familiares de falecidos que, sem saber o que fazer com aquela herança, levam à igreja, achando que ali, elas pemanecerão para sempre.

Um dia perguntei o que era feito com elas. Destruídas e jogadas no lixo. Nesse dia havia por lá uma imagem bonita do S C de Jesus e outra do arcanjo Gabriel. Estavam lascadas. Tomei-as para mim e restaurei. Gostei de fazer aquilo e, de repente, eis-me com diversas imagens em casa, pois já não jogavam fora, mas guardavam para mim. Imagens de gesso, comuns, imagens de terracota, de madeira, porcelana, etc, peças que me proporcionam momentos de descontração em seu restauro.


Mas algumas são especiais. Uma era de dona Fulana, que a trouxe de Fátima e ao falecer, os filhos que não são lá dessas coisas, levaram à igreja. Outra pertencia à sogra de dona Sicrana, mas como não se davam bem, esta não quis guardar coisas da falecida. A Nossa Senhora Mãe de Jesus, grande, de pendurar na parede, assistiu a reuniões de algumas gerações de senhoras da igreja. Ao danificar-se, tiveram pena de jogá-la e ficou por anos guardada, até que souberam da minha mania e ma entregaram. E assim, junto com algumas dessas peças sem valor material chegam histórias que fazem com que elas se tornem providas de vida.

O lugar onde elas ficam chamo de "santário", não santuário, o lugar não é sagrado, nem oratório, pois o objetivo não é fazer dali um local de oração. Gosto do meu santário e de vez em quando paro ali e converso com as imagens sobre as mãos que as tocaram e as razões que as levaram aos lares por onde passaram.