sábado, 9 de agosto de 2014

Barradas no baile, pero no mucho!

É engraçado, para não dizer triste, como estamos despreparados para receber turistas. Não sou uma viajante experiente, muito viajada, mas pelo pouco que tenho andado por aí, com olhar atento, vejo quão desperdiçado está o nosso potencial de belezas naturais, inexploradas ou exploradas mal e porcamente, só com vistas ao lucro imediato e sem senso de preservação e cuidado.



Mas o caso aqui não é esse. No hotel, os recepcionistas não sabiam informar sequer se havia restaurantes nas proximidades, além dos quiosques da praia, quanto mais fornecer informações sobre passeios, atrações locais, etc. Com nossa insistência, entregaram-nos um catálogo de fotos do litoral local. Escolhemos um que nos pareceu interessante e a informação era que se tratava de um restaurante à beira mar, localizado em um condomínio fechado, mas frequentado pelo público em geral. 

Nomes do restaurante e condomínio anotados lá vamos nós em busca da linha de ônibus que passava por lá. No ponto, um jovem simpático orientou-nos e lá fomos em direção a Ipioca, 18 km em direção norte, no litoral de Maceió. Ônibus comum, parando em todos os pontos nos permitiu ver um pouco daqueles bairros e daquela gente. 

- É aqui, informa o cobrador. Descemos e logo constatamos que não era ali. 

- Mais 5 km - informa o segurança do condomínio. 

Outro ônibus e vamos, agora não tão entregues à informação do cobrador. Incrível a falta de atenção do cobrador e motorista do primeiro ônibus. O empreendimento era anunciado em placas na estrada com 3 km de antecedência. Impossível não ver. 

Na portaria fomos barradas, pois era terça-feira e nesse dia, o restaurante é reservado para excursões dos hotéis e estava lotado. Mas nossos recepcionistas não sabiam disso! Chegam dois rapazes, que como nós queriam conhecer a praia. 

- É só conhecer a praia? Não vai poder entrar no restaurante nem para usar o banheiro... – alerta o segurança com certo ar de superioridade, e pede que nos identifiquemos na portaria. 

Com sede e vontade fazer xixi, é claro, depois daquela viagem toda, seguimos rumo à praia, pensando que, para tudo dá-se um jeito, menos para a morte, porque ela já é o jeito final. 


A praia, uma praia a mais do nosso belo nordeste. 


Infringindo as regras daquele lugar, uma ambulante vendia água, que imediatamente comprei e alugava guarda sol e cadeira, desnecessários, visto haver uma bem construída escada pública e a sombra dos coqueiros. De resto, nada que o generoso mar não resolvesse.


Lanchamos nossos próprios petiscos, afinal uma mulher prevenida vale por duas, imagine duas mulheres! Conhecemos mais um pedacinho do nosso chão, compramos delícias típicas da região, e nos divertimos com o sistema de "desconto" da loja. 


No caminho de volta, ainda pudemos fotografar, perdidos no alto de um morro, uma igreja, o busto e o marco indicativo de ser ali o local de nascimento de Floriano Peixoto, que dá nome àquele bairro. Tudo reunido em uma pequena praça, com mirante e vista para o mar. Detalhes bucólicos que não estão nos roteiros turísticos, e que nos revelam sem glamour, a singeleza de nossa terra e de nosso povo.



  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Mais dia, menos dia, nossos caminhos se cruzam...

"É preciso voltar ao caminho que já se fez, para traçar caminhos novos ao lado dele. É preciso recomeçar a viagem.”(José Saramago)


Neste caso, a viagem foi a vida, o caminho que já se fez, a infância e a passagem para o recomeço,  o encontro com o casal de idosos, Ernesto e Ana, durante a visita ao projeto do peixe-boi.

Sentamos próximos no ônibus, do ponto de apoio até o projeto fomos no mesmo carro - ele na frente, ela ao meu lado no banco de trás, mas nada nos chamou a atenção, somente ao descermos do carro, ouvi Ana dizer, ao ajudar Ernesto: "estamos num chão de areia, um pouco recuados da guia". Ele agradeceu e então percebemos que é deficiente visual.

Embora o guia quisesse facilitar as coisas, Ernesto protestava alegremente, dizendo que fazia trilhas, mergulho, etc. e que queria participar de tudo como os demais. E assim foi. Ana era os olhos do marido e ele era todo atenção e entusiasmo.

No caminho de volta à base, conversando, descobrimos que tanto eles quanto eu, morávamos em São Paulo. "Onde"? Perguntei. "Ah, você nunca deve ter ouvido falar no bairro em que moramos, Rio Bonito, na antiga estrada do mesmo nome, próximo do clube de campo".

Um pouco mais de explicação e descobrimos que eles moram exatamente na área onde ficava a primeira escola onde lecionei, em 1965: a 3ª Escola de Emergência do Bairro do Rio Bonito. Viajei no tempo. O lugar, as crianças, a mata. Talvez nossos caminhos até tenham se cruzado...

Mas nem sempre moraram lá. Antes estiveram na Vila Mariana, quando em 1967, Ernesto foi trabalhar no Laboratório Ciba-Geiger, para implantar o processamento de dados. O Ciba, onde meu pai trabalhou durante anos. Mais recordações. O laboratório, os nomes dos diretores mencionados por meu pai. O Engenheiro Salzman, que trouxe da Suíça, a gaita de boca que meu pai tocou até seus últimos dias no hospital. Outro mergulho no tempo.

Falei da Rua do Níquel, onde fui criada e Ana exclamou: "eu conheço, fica perto da Rua da Prata, aonde ia sempre com minhas filhas, fazer compras no mercadinho do seu Antônio, onde encontrávamos produtos alemães e as meninas compravam guarda-chuvinhas de chocolate!". "Que delícia" exclamei, não pelos produtos, e sim pelas recordações, também nós comprávamos lá!

Mais um pouco de conversa e chegamos ao ponto de apoio. Já fora do carro, Ernesto nos reuniu e sorridente como sempre, agradeceu nossos comentários durante o passeio, pois através deles ele conseguiu "ver tudo".  Que pessoa fantástica!

E lá, naquela São Miguel dos Milagres, nas Alagoas, mais uma vez constatamos que não somos mais de 300 em nossos círculos e que mais dia, menos dia, nossos caminhos se cruzam e, dependendo do que fomos ou fizemos, poderá ser motivo de grande alegria, ou não.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Difícil foi ter que segurar e não abraçar aquelas criaturas


O dia prometia. Seriam 70 km em direção norte, ônibus fretado e depois poder finalmente conhecer o projeto de manejo do peixe-boi para reintrodução no seu habitat. 


No caminho, os canaviais como cabeleiras ondulantes sobre as colinas, compunham o cenário verde, iluminado pelo sol já alto, naquele paralelo 9, que nos acompanhava debaixo do céu do mais profundo azul.




Aos poucos, casas esparsas, povoados típicos do nosso nordeste se nos apresentavam à frente e revelavam sua gente, seus costumes. Uma capela, uma igreja do século XVII, e estamos em São Miguel dos Milagres, estado de Alagoas.


 Na sede do projeto, em Porto das Pedras, nosso instrutor, motorista e guia, repassa as instruções para a esperada visita. Tudo pronto, seguimos de carro até o início de uma trilha, ponto de partida de nosso destino.


 

Um privilégio estar ali, caminhar sobre aquelas palafitas no manguezal, observar os diferentes tipos de caranguejos coloridos, obras de arte do Criador, à porta de suas tocas, a nos observar; atravessar o Rio Tatuamunha e perceber na tranquilidade de suas águas e no olhar dos ribeirinhos, a certeza da segurança para os moradores mais ilustres e mais frágeis: os peixes-boi abrigados bem perto dali.


A embarcação - canoa, como a conhecem por ali, comporta oito pessoas sentadas, o guia em pé na parte da frente e dois remadores atrás. Na verdade, eles impulsionam o barco com varas, alternadamente apoiadas no fundo do rio. As visitas ao santuário são limitadas a poucas pessoas/dia, que não podem se aproximar da cerca interna, nem tocar na água ou nos animais, mesmo que, os que já estão soltos, venham até o barco.




A expectativa era grande. Nem sempre é possível ver o peixe-boi, mas como em todo o passeio, fomos privilegiados com a visão, não de um, mas dois belos exemplares que se aproximaram do barco e nos emocionaram com suas reviravoltas. Difícil mesmo foi ter que segurar e não abraçar aquelas criaturas tão dóceis e indefesas, com seus 300 kg de peso.

Mas os privilégios não terminam aqui. Outros fatos fizeram daquele dia uma ocasião mágica.


domingo, 3 de agosto de 2014

Um passeio inesperado


De repente lá estávamos, embarcados em uma "gaiola", rumo à foz do Rio São Francisco. As imagens dispensam as palavras, mas devo acrescentar a elas, uma poesia de Edna Lopes, que encontrei ao fazer uma pesquisa, ela fala por mim.



Rio São Francisco  


Rio São Francisco
Velho rio que ainda
Acolhe generoso
Quem dele se aproxima


Caminho às margens
E percebo vidas
Toco nos coqueirais
E mergulho na lenda




Deslizo nas dunas,
Aceno aos ribeirinhos e
Imagino histórias.
Observo as lavadeiras
E relembro seus cantos.





Penso no peixe, nas frutas
E no arroz irrigado,
Subsistência do Homem
Que vive do rio e para o rio.


Cumprimento o barqueiro
E o velho pescador de olhar sofrido,
Com a lembrança
Da pujança do rio de outrora.


Sinto, reconheço
A tragédia anunciada
No assoreamento
Do rio que agoniza


Velho, velho Chico
Encanto, saudade e pranto
De quem te sonhou
Crescente e te reencontrou minguante. 


Texto: Edna Lopes
Fotos: Lidia Walder



sábado, 12 de abril de 2014

ANOTAÇÕES



06/04 – Enquanto o táxi avança na escuridão da noite, tento dissipar a névoa do tempo em busca da lembrança de bons momentos vividos por aqui. A família, raramente reunida para férias, as crianças, meu pai, certa vez tido por meu amante... Foi engraçado ver o desconforto, para não dizer a maldade, de pessoas que conheciam meu marido, aqui me viam com esse outro homem e davam asas à imaginação. Não julgueis...
Naquele tempo não estranhava o fato de nunca contar com a companhia de meu esposo em nossas férias. Ele trabalhava muito... “Você não soube me amar, você não soube me amar...” berrava o Evandro Mesquita, naquelas noites de janeiro. Início dos anos 80, eu era tola e não entendia...
A última vez que aqui estive foi em 1992 – julho. Uma semana de solidão, chuva e frio. Frio na alma pela percepção de que começava a perder meu filho caçula e meu grito de socorro ecoava em vão resvalando em interesses então desconhecidos. Tola, tola, tola!

***

07/04 - Hoje conheci a Jaqueline e sua garça, ambas estagnadas. Ela mãe solteira e como a garça, dependente do pai pescador. Garças me encantam, talvez por que houve um tempo em que era chamada de “minha garça”. Com esta, a da Jaqueline, aprendi que elas, as garças, prezam a higiene. Pega o peixe, voa em direção à poça d´água, lava-o, come e volta para tentar um bis. Pena que hoje a pesca não foi boa.



***

08/04 – Sigo a rota dos pescadores. As boias alinhadas perpendicularmente à praia demarcam os caminhos das redes. De repente, centenas de biguás sobrevoam a área em busca da pesca fácil. O horizonte torna-se sinuoso e dinâmico ao mergulho alternado dos grupos de aves.

***

09/04 – Às vezes, apesar dos meus braços perfeitos, me atrapalho ao executar tarefas simples, como servir-me do café. À minha frente, no buffet, o rapaz com um braço só, serve-se com desenvoltura das iguarias da mesa enquanto conversa animadamente com a esposa. Foi um acidente e levou-lhe o ombro também.

***

10/04 – Devia ter dado atenção àquele velhinho tímido e simpático que puxou conversa na sala de jogos. Pelo pouco que disse, talvez fosse um caso clássico de escuta solidária. Quem sabe o encontro de novo...

***


11/04 – Mala pronta, hora da avaliação. Estar entre estranhos pode ser uma situação de solidão comunitária ou um rico garimpo de riquezas escondidas à espera da bateia, neste caso eu e aquelas, a Zulma, a Miriam, a Roseli e a Nilva, joias raras, que adornaram minha passagem por aqui e, espero não se percam no afã da rotina da volta ao lar...


Roseli, Nilva e Miriam. A Zulma não gosta de ser fotografada, 
mas sua imagem está gravada no meu coração.

segunda-feira, 17 de março de 2014

COINCIDÊNCIA? JAMAIS. PROVIDÊNCIA!


Em outubro de 2012, quando minha irmã Jussara se submeteu à cirurgia para retirada de um câncer de pâncreas, todos se irmanaram num pensamento comum e invocaram, cada qual segundo suas convicções, a graça de seu restabelecimento. 

Naquele  mês, Mike, um grande amigo, acendeu uma vela votiva e manteve essa chama acesa, ininterruptamente até o último dia 13 de março, quando ela foi colocada no interior de uma igreja. 

A intenção era levar a chama a um ponto bem alto e lá compartilhar com o universo toda a energia acumulada durante os meses em que ela foi o foco de suas intenções de cura.

Lugar alto escolhido, hotel de destino reservado e eis que, certa noite, Mike sonha com um casarão amarelado, tipo hospital ou igreja, relacionado ao nome Rita. Bem, Santa Rita é o nome do hospital onde faleceram meus pais e lá existe uma capela de Santa Rita. De repente o nome Rita começou a nos aparecer: a caixa do mercado, a noiva, no site da paróquia...

Dia 13 de março, saímos com destino à região de Monte Verde para, no caminho, deixar o chama em alguma capela localizada em lugar alto. Entramos em Joanópolis onde encontramos muitas capelas fechadas. Nas vizinhanças, a mesma coisa. Chegamos a Extrema e quando quase desistíamos de deixar a chama no caminho, eis que, na saída da cidade a Jussara lê numa placa gasta pelo tempo: San.... Santa Rita. Seria sanatório ou santuário? Olhando na direção indicada pela placa, avistou no topo de um monte uma igreja iluminada. Era 19h e começava a chuviscar. 


Minutos depois estávamos dentro do Santuário de Santa Rita de Cássia, em Extrema, onde se realizava o quinzenário de orações em preparação à festa da Padroeira da cidade. Ao som do hino de Santa Rita, executado por banda e coral daquela igreja, chorando de emoção, depositamos a chama ao lado das outras velas que ali queimavam, fizemos nossas preces de agradecimento e debaixo de copiosa chuva seguimos rumo ao nosso passeio  em  comemoração às graças alcançadas e à  missão cumprida.