domingo, 16 de fevereiro de 2014

Há 10 anos, no túnel do tempo...


Nesta semana acontece o 10º aniversário do primeiro encontro presencial do pessoal do site vivasp.com, fora do ar agora e sobre o qual já escrevi anteriormente. Foi no café do Pátio do Colégio, onde a cidade nasceu.

Quando surgiu no site a ideia de um encontro, fiquei temerosa, a internet ainda era um mistério para mim e, sabe-se lá quem seriam aquelas pessoas. Refleti na máxima “que só nos arrependemos do que não fazemos” e concluí: que perigo pode haver, se é um lugar público?

Ao sair de casa naquele sábado, minha filha “tirou um barato”: lá vai minha mãe encontrar-se com seus amiguinhos da rede! Confesso que me senti meio ridícula...

Foi ótimo. Uma experiência nova e gratificante descobrir os rostos daqueles que já me pareciam familiares na rede, por causa das histórias de vida que ali contavam.

Hoje, lembrando a data, recebi uma mensagem do Claudio Bassi Elias, que lá também esteve naquela tarde e com ela, as duas fotos daquele encontro, que ilustram este texto.

Ah, que saudades daquelas histórias lidas no site e ouvidas na Rádio Eldorado; dos encontros em pontos referenciais da cidade de São Paulo; dos passeios onde descobri a cidade onde nasci...



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Enxovais! Ainda fazem isso?


Não sei se por eu ser uma menina muito levada, que não se contentava só em brincar de bonecas e de casinha, mas precisava participar também das divertidas brincadeiras dos meninos: empinar quadrados, caçar passarinhos com arapucas e estilingue, subir em árvores, jogar tacos, fazer balões... ou porque realmente me queria uma donzela prendada, minha mãe decidiu que aos 8 anos deveria me introduzir no maravilhoso mundo das prendas femininas, começando pelo crochê. 

Durante uma hora por dia, eu praticava. Correntinha, ponto baixo, ponto alto e assim com essa idade, confeccionei parte por parte, a peça, que guardo e mostro aqui. Depois, vieram as tardes de tricô, os lencinhos com monogramas bordados e as noções de corte e costura. 

Na escola, durante as aulas de "trabalhos manuais", tirava de letra as artes ensinadas e ainda ajudava as colegas.

Tudo isso não me impediu de chegar aos 14 anos empinando capucheta com estirante de barbante do pacote de 5 quilos do Açúcar União, para horror das tias mais velhas que não viveram para ver as pinturas, os bordados, os crochês, as peças com ajour, ponto Paris, ponto sombra e até nhanduti, tudo feito por mim, para o meu modesto enxoval.

Uma bicicleta quase perfeita

Minha amiga Márcia, autora do delicioso blog Moema de tantas histórias, com a provocação feita a seus leitores para que contassem suas recordações sobre a primeira bicicleta, me fez escrever o que segue. Obrigada Márcia pelo cutucão!

O ano devia ser 1951 ou 52, ainda não frequentava a escola. Meu tio Luiz – que morava ainda em Moema, na Alameda dos Arapanés - trabalhava na Caloi, no Brooklin e, com o consentimento de chefe, trazia para casa peças com pequenos defeitos e assim, montou uma bicicleta adequada ao meu tamanho. Tinha 6 ou 7 anos e essa foi a minha primeira bicicleta.

A alegria só não era completa por um simples detalhe: a bike não tinha pneus nem freios, mas isso não era obstáculo para minhas aventuras.

Aos sábados ia com meu pai passear pelas ruas da Cidade Monções, nas imediações da Hípica Paulista, conforme o Google, a quase 5 km de casa. Uau!

Naquele tempo o DAEE abria as valetas para levar água encanada ao bairro, que por isso, estava todo esburacado. Meu pai ia à frente e eu fazia o que podia para acompanhá-lo, patinando com a roda a seco naquela terra revolta da borda do buraco e de repente, vapt! Escorreguei. Caí com bicicleta e tudo dentro do buraco. A valeta era estreita e fiquei exatamente como estava: sentada no selim e com os pés nos pedais. Foi uma dificuldade sair da bicicleta e entregá-la ao meu pai, que a essas alturas, estava deitado no chão, com meio corpo dentro do buraco. Nada demais aconteceu.

Um pouco mais velha, dava minhas voltas no quarteirão, sozinha, livre!  Era delicioso ir pelo lado com menos declive e voltar pelo ladeirão da Rua Platina. A bicicleta já estava pequena para mim, que sempre fui muito alta para a idade, assim como dizia minha mãe, eu parecia um camelo, curvada sobre os guidões e foi assim, com a cara me precedendo, que certo dia perdi a direção e subi na pilha de tijolos em frente de casa, deixando a bicicleta para traz e aterrissando de queixo no topo da pilha.

Explicando: a pilha de tijolos estava organizada em degraus. Meu avô arrumava assim, para evitar que ela desmoronasse e machucasse as crianças, então, com a velocidade que vim, foi fácil subir com a bicicleta o primeiro lance e me esparramar depois.


Hematomas à parte – eu parecia um moleque, como dizia minha pernóstica tia avó professora - aquela minha primeira bicicleta me proporcionou muitos bons momentos na infância.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Mais uma vez, eu sei...


Engraçado, existem pessoas que não têm absolutamente nada a ver com nosso perfil, mas, de repente, passam a fazer parte da nossa vida, seja pelo que representam para os nossos próximos, sela pelo momento da vida que passamos ou mesmo pela forma como conseguem dizer exatamente aquilo que sentimos e não conseguimos por em palavras. Não sou de fazer apologia a ídolos populares, nem me aprofundo na vida pessoal de famosos, pois essa parte só a eles pertence, a mim cabe apreciar ou não seu talento e me extasiar ou não com sua arte e graça.

Assim, se menciono aqui o nome de Renato Russo é pelo direito de crédito que lhe cabe e por que ele é, de certo modo, uma daquelas pessoas que citei acima. Muitas vezes me pego cantarolando suas músicas ao recordar momentos passados e mesmo ao vivenciar fatos que assomam no presente e ainda me surpreendem.

Houve um tempo em que “Eduardo e Mônica” foi a trilha sonora de nosso trajeto casa-escola. Era um tempo turbulento, mas eu ainda tinha uma esperança ingênua.  De uns tempos para cá, parece que “Mais uma vez” se tornou meu tema musical, sabe, como nas novelas?  É fundo musical perfeito para personagem deprimida, mas não sou deprimida, passo por altos e baixos, mas sempre volto para os altos, graças a Deus! Mas é também um grito de esperança: “Mas é claro que sol voltará a brilhar, mais uma vez eu sei...” E é aí que me apego.

Tive um professor de Geografia, Celso Antunes, muito conhecido hoje, que ante nossas dificuldades, falava sobre um momento triste de sua vida e como, sentado em um banco na praça, ench
arcado pela chuva, debaixo de um céu repleto de nuvens negras, refletiu que ainda havia estrelas no céu, apesar das nuvens elas estavam e estariam sempre lá, era só esperar para vê-las.


Fé, esperança e paciência, na fala do professor e na música do Renato. O que é a vida, transitória como se apresenta, senão um eterno confiar e esperar?  Enfim, como diz o Renato “Quem acredita sempre alcança...”, então vou  ouvir e refletir mais uma vez sobre  “Mais uma vez”.

Mais Uma Vez
Renato Russo

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de noitecer gente sã
Espera que o sol já vem

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!




sábado, 18 de janeiro de 2014

A um passo do paraíso...




Em julho de 2005 estive a um passo do paraíso sob o patrocínio da Cristina, minha amada filha que, por ocasião de tornar-me sex... ( sexagenária), presenteou-me com a realização de  um sonho acalentado há anos.

Lá, carregando pedras enquanto descansava; subindo e descendo mais escadarias do que subo e desço aqui, carregando muito peso sobre os ombros e arrastando meus pés descalços por caminhos nunca dantes transitados, pensava de vez em quando nas obrigações deixadas para trás, mas ia logo afastando essas lembranças, pois como aprendi no catecismo, é pecado alimentar maus pensamentos.

Certa tarde, eu que bravamente atravesso a Praça da Sé, que passeio pelo bairro da Luz, exploro os arredores da 25 de março; que já visitei os becos sórdidos dos treme-tremes do Bexiga, trabalhei ao lado da favela Funerária entre a Vila Maria e o Parque Novo Mundo; sem contar a passagem diária pela tenebrosa esquina perto de casa, que não é esquina, mas curva de rio, onde para tudo o que não presta, fui covardemente assaltada por um Bob Marley nada artista e muito fedorento que ali, a um passo do paraíso, em parceria com um elemento esquisito, agarrou quem me acompanhava arrancando-lhe a carteira de documentos e cortando, com uma faca fina e pontiaguda, a alça da bolsa a tiracolo.

Como diz o ditado: “o saber não ocupa lugar”, e sendo esta cidade, mestra em nos preparar para esse tipo de situação, fui logo dizendo ao Bob Marley de araque: "calma, por favor, não leve as roupas, deixe nossos documentos, eu lhe mostro onde está o dinheiro, tem só uma nota de 50”.

Enfiando a bolsa na minha cara, com a faca perto do meu nariz, ele esperou que eu abrisse o zíper e apontasse a pequena bolsa de crochê, que revirou, pegando a nota e dizendo para o outro que portava uma faca curta porém robusta: “pode deixar, não tem mais nada não!”.

Assim, a um passo do paraíso, aonde minutos antes contemplávamos extasiados as belezas naturais e agora via aquela lâmina reluzindo ao sol, só conseguia pensar numa coisa: “não permita Deus que eu morra sem que volte para lá!” (Gonçalves Dias).

Atônitos, caminhamos lentamente em direção ao hotel, vendo nossos agressores afastarem-se tranquilamente, com aquela terrível sensação de impotência, mas agradecendo a Deus por ter sido apenas um susto. 

E foi ali, a um passo do paraíso e não aqui na cidade violenta, que o inesperado lá, mas esperado aqui, aconteceu.


De lá, guardo o sonho realizado de conhecer os indescritíveis Lençóis Maranhenses, lembranças, imagens extasiantes e um "recuerdo" feito por mim, com a casquinha do siri, degustado naquele dia, numa praia urbana em São Luiz do Maranhão.




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Por falar em levar vantagem, me lembrei...

Fevereiro de 1974. Três filhos pequenos, uma casa num conjunto residencial do BNH no  bairro da Vila Lavínia, Mogi das Cruzes, sem o carro, vendido para pagar dívidas.


A filha mais velha, 7 anos e 4 meses, convalescia de uma pneumonia em casa e o caçula, 1 ano e 5 meses, após diversas complicações de saúde, decorrentes de uma mononucleose, adquirida  por volta dos  40 dias de vida, jazia num leito hospitalar sem perspectivas de melhora.  Minha vida era um ir e vir insano.

Por esses dias, despencou um temporal arrasador e ao anoitecer, consegui emprestado o carro de uma amiga para ir até em casa, dar uma geral e voltar ao hospital.

O caminho estava um caos, sem iluminação, a avenida de acesso ao bairro com mais de um palmo de lama que desceu das partes altas. De repente, na minha frente um veículo vindo do sentido oposto, atropela um vulto que saindo de uma travessa adentra a rua sem parar. Tudo muito rápido e confuso. O motorista freou, mas o carro deslizou no barro e passou por cima do cidadão, cujo corpo agora jazia ao lado meu carro, semi coberto de lama e sangue. Por questão de segundos teria sido eu a atropelar aquele homem. Alguns carros pararam para ajudar. Segui meu caminho com as pernas bambas.

Bem mais tarde, de volta ao hospital, notei a movimentação de policiais e soube que a vítima do atropelamento estava internada ali. Soube também pelos enfermeiros que era um senhor dos seus 50 e poucos anos, alcoolizado, que já estava cuidado e internado e que o motorista permanecia ali, aflito e solícito.

Na manhã seguinte, um sábado, fui liberada do hospital para ir pra casa cuidar das outras crianças. Meu marido ficaria ali. Para sair, devia passar em frente ao quarto do atropelado. Parei na porta pensando em entrar e ter notícias de seu estado, mas devido ao alvoroço, fiquei onde estava tentando entender aquela gritaria.

No leito, ele gemia alto, enfaixado dos pés à cabeça, semi sentado, com os braços e uma das pernas pendendo de cordões presos a uma armação de metal, parecia uma múmia-marionete. De um lado da cama, aquela que logo entendi ser a esposa, esbravejava e gritava para não deixar dúvidas, com o rapaz, que logo reconheci ser o motorista, que estava do outro lado da cama, exigindo indenização pela perda do marido, o mantenedor da família. Ele deveria pagar uma boa soma, pois ela estava desamparada e a culpa era dele.

O rapaz, que me pareceu do bem e não teve culpa no que aconteceu, eu vi, ouvia, tentava acalmar a mulher, dizendo que não fugiria às suas responsabilidades. Mas ela queria saber quanto? Quanto dinheiro ele lhe daria, era pobre, agora  teria  despesas com enterro, etc.

Fiz um sinal ao rapaz, me identifiquei e perguntei se tinha alguma testemunha. Sim, outros viram o que eu vi. Ele me agradeceu e fui para casa pensando naquela situação inusitada, daquela mulher dando o marido como morto e só pensando em levar vantagem.


Tempos depois, voltando ao hospital para uma consulta, soube que aquele senhor se recuperara completamente, já estava de volta ao trabalho. Enfim, tudo acabou bem.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tios e primos

Hoje minha tia Léia completa 95 anos. Irmã mais velha do meu pai resiste bravamente ao tempo e às intempéries da vida. 

Fomos vizinhos durante muito tempo. Ela uma energia impressionante. Magra, elétrica. Sempre se movimentando de um lado para o outro.  Casada com o tio Antonio, um tipo tranquilo e bonachão, que com aquele riso meio rouco que sacudia a pança era diversão só. Os filhos Moacir, Márcia, Miriam e Maurício, os M M M M, ótimas companhias e só alegria. 

O Moacir muito pândego me irritava com piadas inocentes, mas nojentas.  Lia muito, colecionava livros e gibis que foram as minhas primeiras leituras na infância. Dois anos mais novo que eu, foi meu “alvará de soltura” junto aos meus pais, para frequentar cinemas, além das matinês e assistir sucessos como Bem Hur, Álamo, etc...

A amizade continua e quando nos encontramos rimos muito lembrando a infância.

Dizem por aqui que a tia Léia sou eu amanhã. Tomara!

Também vizinhos, os tios Luiz e Dirce, ele, irmão mais novo do meu pai, com a grande família: Cilmara, Luiz Antonio, Vera, Nazaré e Edilson – o Léo.

Lembro quando conheci a tia Dirce, acho que foi quando eles ficaram ou iam ficar noivos.  Baixinha, delicada e voz fininha e macia, diferente da minha mãe e das minhas avós que falavam “duro”. Confesso que naquele momento tive ciúme do meu tio Luiz, que me paparicava muito.

Lembro-me do nascimento da filha mais velha, do seu batizado, com direito a festa e discos na vitrola. Mas o que mais curti foi o Luizinho, 10 anos mais novo que eu. Quando minha tia Dirce me deixava ficar um pouco com ele, era o meu bebê na brincadeira de casinha. Hoje, junto com os outros que aqui permanecem, são nossos anjos da guarda. Sempre atentos e solícitos, nos ajudando demais.

Do outro lado da família era o tio João, tia Adelaide e tia Lúcia, irmãos da minha mãe e respectivos cônjuges.

O tio João e a minha mãe eram muito ligados, assim sempre o visitávamos na casa da Vila Indiana na Vila Helena. Os primos Benedito, Maria Conceição e Ademir eram muito divertidos e como moravam numa vila bem sossegada, quando íamos lá, podíamos brincar na rua, pular corda, andar de patinete e carrinho de pedalar – sempre achei os brinquedos dos meninos bem mais interessantes do que as bonecas. A tia Mariazinha, de pouca fala, era só carinho, cafezinho e bolo. 

A tia Adelaide, o esposo Ari e os filhos Roberto e Gilberto moravam na Cidade Adhemar. Foram uns dos primeiros moradores do bairro. A casa ficava em um terreno em declive que dava num córrego bem limpo. Do outro lado havia uma elevação, tipo colina, com mata Atlântica natural, onde se viam Manacás lindos com suas flores roxas e brancas. Lá brincávamos de pega-pega e esconde-esconde, pois o terreno e a casa ainda inacabada favoreciam esses folguedos.

Dali me vem dois fatos marcantes: a caçada às içás que depois viraram petisco que não experimentei e a ida a pé pela mata, até o bairro de Santa Catarina onde ocorreu a queda de um avião. Jamais esquecerei aquele cenário cinzento, repleto de destroços...

A tia Adelaide faleceu precocemente, por ocasião da troca de seu marca passo cardíaco. Com esses primos, perdi o contato.



A tia Lúcia, o tio Salvador e os filhos Ricardo e Lucia Helena moravam na Cidade Vargas. Fomos almoçar em sua casa algumas vezes e lembro até do gosto da carne assada recheada que ela fazia. 

Sempre foi muito carinhosa conosco, me tratando até hoje de filhinha, nas poucas vezes que a visito na mesma casa, onde mora com a filha Lúcia Helena, que cuida dela.