Não sei a quantas anda o Hospital do Servidor Público do Estado, a única vez que me utilizei dele, além do ambulatório, foi em 1995, numa situação de emergência e sem cobertura de um plano de saúde e fui muito bem atendida por um jovem residente de cabelos ruivos, que logo detectou o problema, pediu exames urgentes e me internou para cirurgia. E aí é que começa o sufoco.
Numa enfermaria de quatro leitos, na ala em reforma, logo descobri que do banheiro restava apenas o contra piso rústico e alagado pelo vazamento do vaso sanitário. Cheirava mal, mas tinha uma grande vantagem: era o único na ala que tinha água quente no chuveiro o que levava a uma desvantagem: todas as pacientes da ala vinham tomar banho ali, num entra e sai interminável.
Meu estado era grave (estava com mioma no útero e tinha hemorragia contínua), mas tinha um consolo: não morreria só. Além do movimento do banheiro, à noite, graças a uma gentil colega de quarto, este atingia sua lotação máxima. Pacientes de outros quartos e faxineiras. compareciam para o capítulo inédito da novela da Globo. Sentadas em nossas camas, apoiadas em suas vassouras e rodos, comentavam animadamente o desenrolar da trama. Só faltava a pipoca com guaraná.
Quanto à faxina, minha irmã providenciou o material necessário para que eu, embora conectada ao soro, providenciasse a desinfecção do banheiro.
Exames, vários dias de jejum, muita medicação e nenhum resultado, um belo dia, decidiram por transfusão de sangue e cirurgia imediata.
Chamei o capelão do hospital e pedi a Unção dos Enfermos para salvar a alma, o corpo já considerava perdido.
À tarde o Centro Cirúrgico vagou, bem na hora da visita. O hospital parecia um shopping center em véspera de Natal e em meio ao entra e sai, com jejum de quatro dias, sou conduzida por uma enfermeira, sem cadeira de rodas nem maca, vestida com um modelito nada pudico e carregando o pesado suporte de ferro do soro e, diante da perplexidade da minha filha, começo o desfile por aquele longo corredor repleto de transeuntes, quando uma hemorragia me obriga a parar.
Aos gritos de minha filha, uma cadeira de rodas aparece, jogam um lençol sobre a mim, e, aos prantos dou entrada no CC, sob os olhares de reprovação do grupo de residentes que aguardavam para assistir a função e antes de subir na mesa de cirurgia, sem ajuda, ainda ouço o comentário de uma das mocinhas: “chorona, só porque é paparicada pela família, fica fazendo manha”.
A sala de cirurgia improvisada, compunha-se de mesa, alguns aparelhos, um balcão tipo pia do meu lado esquerdo, onde jaziam à minha espera dois frascos de sangue e do lado direito, prateleiras repletas de aparelhos de TV, vídeo, equipamentos e caixas empoeiradas.
Em um canto o grupo, uns quatro ou cinco, conversava animadamente, enquanto dois jovens simpáticos cuidavam da anestesia, que segundo eles seria um procedimento digno do hospital A. Einstein.
Anestesia raquidiana, pois o hospital não dispunha de peridural, como constataram na hora.
Preparar, apontar e... nada! A anestesia não funcionou.
Replay. Não funcionou de novo.
“Será que estavam vencidas?” sussurra um deles.
“O que fazemos agora?”
“ Vai de geral” .
“ Não pode, ela fez duas transfusões hoje!”
“ Mas tem que ser agora!”. Está tudo preparado e sabe lá quando vai ter vaga de novo.
“Onde estará meu residente de cabelos ruivos?!” Não fujo porque estou amarrada.
Olho para a porta aberta e vejo a janelinha de vidro da sala em frente e não sei por que me lembro da música do Amado Batista:
“No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via...”
Uma injeção na veia e quando abri os olhos estava numa maca em movimento, rodeada pela minha família. Não entendi nada. Só acordei de verdade, dois dias depois, quase sem poder me mexer e me sentindo muito mal, mas não estava só. As faxineiras continuavam ali, solidariamente assistindo a TV, sentadas em cima de nossos leitos e as colegas de quarto saboreavam as minhas sobremesas que se acumulavam sobre a mesa de cabeceira.
Estive ali durante nove dias. Dentro das limitações da falta de pessoal e apesar dos baixos salários, fui muito bem tratada pelos médicos e enfermeiras, só tendo a agradecer, pois após a cirurgia recuperei minha saúde.
Quatro dias depois da cirurgia, após assistir a agonia de uma das ocupantes do quarto, convenci o médico de que estava bem, me alimentando e com tudo funcionando (Mentira! Não fiz cocô nenhuma vez ali).
Consegui alta e saí numa cadeira de rodas.
Só então, ao abrir a porta de casa, tive a real dimensão do quanto ela era limpa, acolhedora e que banheiro maravilhoso era o meu!
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Se fosse hoje, talvez não estivesse viva para contar...
Sou otimista, espero um futuro melhor, acredito que a vida é boa e “a felicidade até existe”, não curto desgraças, prefiro falar das rosas e ignorar os espinhos, mas a realidade está aí e de vez em quando a gente deixa de ser espectador e passa a protagonista. Foi o que aconteceu comigo no verão de 2002.
Avenida Brasil próximo a Rebouças, 18 horas e muitos minutos. Trânsito quase parado, calor insuportável. De carona com minha amiga Silvia, voltava para casa após um exaustivo dia de trabalho quando, paradas num semáforo, vidros burramente semiabertos, aparece não sei de onde, um garoto, encosta algo em meu rosto próximo à orelha e pede dinheiro.
Silvia apavorada pede calma e vira-se para pegar a bolsa. Escorrego a minha para debaixo do banco, a féria do dia do restaurante estava nela. Não sei por que, burramente, virei-me devagar e olhei de soslaio o que ele encostava no meu rosto. Era uma garrafinha de refrigerante com o fundo quebrado.
Num reflexo, segurei-lhe o pulso. Ele tentou trocar o objeto de mão e eu segurei o outro pulso, gritando para Silvia fechar o vidro dela e tentar fechar a janela do meu lado. Com as mãos para fora, segurando o menino com toda força que Deus me deu naquela hora, olhava desesperada para o semáforo que não abria.
A Silvia não conseguia fechar o meu vidro, pois os meus braços estavam sobre ele, agüentando o peso do menino que com o pé apoiado na porta do carro esforçava-se para atingir meu rosto com a garrafa e tentava morder-me as mãos.
Olhava para o rosto esquálido daquele menino de uns doze ou treze anos, desfigurado pela raiva e pela miséria e sentia um misto de pavor e pena. Pavor pela possibilidade dele atingir meus olhos e pena por ver o que um sistema injusto, que deixa as drogas correrem solto, consegue fazer com uma criança.
O semáforo abriu, a Silvia arrancou e eu larguei o garoto que rolou no chão e sumiu. Pouco adiante o trânsito pára novamente. Que pavor! Foi então que apareceu um jovem, para nos perguntar se precisávamos de ajuda, pois ele presenciara tudo. Todos os que estavam à nossa volta presenciaram tudo, mas ninguém se arriscou a sair da segurança de seu veículo, mesmo vendo que o garoto só empunhava uma garrafa e eu o segurava.
O incidente me custou alguns hematomas nos braços, torcicolo e mau jeito no tornozelo e à Silvia, a certeza de por um bom tempo não voltar para casa por aquele caminho!
Avenida Brasil próximo a Rebouças, 18 horas e muitos minutos. Trânsito quase parado, calor insuportável. De carona com minha amiga Silvia, voltava para casa após um exaustivo dia de trabalho quando, paradas num semáforo, vidros burramente semiabertos, aparece não sei de onde, um garoto, encosta algo em meu rosto próximo à orelha e pede dinheiro.
Silvia apavorada pede calma e vira-se para pegar a bolsa. Escorrego a minha para debaixo do banco, a féria do dia do restaurante estava nela. Não sei por que, burramente, virei-me devagar e olhei de soslaio o que ele encostava no meu rosto. Era uma garrafinha de refrigerante com o fundo quebrado.
Num reflexo, segurei-lhe o pulso. Ele tentou trocar o objeto de mão e eu segurei o outro pulso, gritando para Silvia fechar o vidro dela e tentar fechar a janela do meu lado. Com as mãos para fora, segurando o menino com toda força que Deus me deu naquela hora, olhava desesperada para o semáforo que não abria.
A Silvia não conseguia fechar o meu vidro, pois os meus braços estavam sobre ele, agüentando o peso do menino que com o pé apoiado na porta do carro esforçava-se para atingir meu rosto com a garrafa e tentava morder-me as mãos.
Olhava para o rosto esquálido daquele menino de uns doze ou treze anos, desfigurado pela raiva e pela miséria e sentia um misto de pavor e pena. Pavor pela possibilidade dele atingir meus olhos e pena por ver o que um sistema injusto, que deixa as drogas correrem solto, consegue fazer com uma criança.
O semáforo abriu, a Silvia arrancou e eu larguei o garoto que rolou no chão e sumiu. Pouco adiante o trânsito pára novamente. Que pavor! Foi então que apareceu um jovem, para nos perguntar se precisávamos de ajuda, pois ele presenciara tudo. Todos os que estavam à nossa volta presenciaram tudo, mas ninguém se arriscou a sair da segurança de seu veículo, mesmo vendo que o garoto só empunhava uma garrafa e eu o segurava.
O incidente me custou alguns hematomas nos braços, torcicolo e mau jeito no tornozelo e à Silvia, a certeza de por um bom tempo não voltar para casa por aquele caminho!
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Não tenho tempo, Senhor!
Quando fiz 15 anos, ganhei de meu pai, a pedido, o livro "Poemas para rezar", e, é de lá que compartilho o texto que segue, sempre atual.

"Saí, Senhor.
Lá fora os homens saíram.
Iam,
Vinham,
Andavam,
Corriam.
As bicicletas corriam,
Os automóveis corriam,
Os caminhões corriam,
A rua corria,
A cidade corria,
Todo o mundo corria.
Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam no enlaço do tempo, para recuperar o tempo, para ganha tempo.
Até logo, doutor, desculpe-me - não tenho tempo.
Passarei outra vez, não posso esperar mais - não tenho tempo.
Termino aqui esta carta - pois não tenho tempo.
Queria tanto ajudar-te - mas não tenho tempo.
Não posso aceitar, por falta de tempo.
Não posso reflectir, nem ler, ando assoberbado - não tenho tempo.
Gostaria de rezar - mas... não tenho tempo.
Compreendes, Senhor, eles não tem tempo.
A criança está a brincar, não tem tempo agora... mais tarde...
O estudante tem os seus deveres a fazer, não tem tempo... mais tarde...
O universitário tem lá as suas aulas, e tanto, tanto trabalho que não tem tempo... mais tarde...
O rapaz pratica desporto, não tem tempo... mais tarde...
O que casou, há pouco, tem a sua casa, deve organizá-la.
Não tem tempo... mais tarde...
O pai de família tem os seus filhos, não tem tempo... mais tarde...
Os avós têm os seus netos, não têm tempo... mais tarde...
Estão doentes.
Precisam tratar-se... não têm tempo... mais tarde...
Estão à morte, não têm...
Tarde de mais... já não têm tempo.
Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor.
Passam correndo pela Terra, apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados. Nunca chegam, falta-lhes tempo, apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo, falta-lhes mesmo muito tempo.
Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.
Há um engano geral:
Horas curtas de mais, dias curtas de mais, vidas curtas de mais.
Tu que estás fora do tempo, Senhor, sorris ao ver-nos assim a brigar com ele.
E sabes o que fazes.
Não Te enganas quando distribuis o tempo aos homens, a cada um dás o tempo de fazer o que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo, não esbanjar tempo, não matar o tempo,
Pois o tempo é um presente que nos dás.
Presente perecível,
Um presente que não se conserva.
" Michel Quoist em "Poemas para rezar"

"Saí, Senhor.
Lá fora os homens saíram.
Iam,
Vinham,
Andavam,
Corriam.
As bicicletas corriam,
Os automóveis corriam,
Os caminhões corriam,
A rua corria,
A cidade corria,
Todo o mundo corria.
Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam no enlaço do tempo, para recuperar o tempo, para ganha tempo.
Até logo, doutor, desculpe-me - não tenho tempo.
Passarei outra vez, não posso esperar mais - não tenho tempo.
Termino aqui esta carta - pois não tenho tempo.
Queria tanto ajudar-te - mas não tenho tempo.
Não posso aceitar, por falta de tempo.
Não posso reflectir, nem ler, ando assoberbado - não tenho tempo.
Gostaria de rezar - mas... não tenho tempo.
Compreendes, Senhor, eles não tem tempo.
A criança está a brincar, não tem tempo agora... mais tarde...
O estudante tem os seus deveres a fazer, não tem tempo... mais tarde...
O universitário tem lá as suas aulas, e tanto, tanto trabalho que não tem tempo... mais tarde...
O rapaz pratica desporto, não tem tempo... mais tarde...
O que casou, há pouco, tem a sua casa, deve organizá-la.
Não tem tempo... mais tarde...
O pai de família tem os seus filhos, não tem tempo... mais tarde...
Os avós têm os seus netos, não têm tempo... mais tarde...
Estão doentes.
Precisam tratar-se... não têm tempo... mais tarde...
Estão à morte, não têm...
Tarde de mais... já não têm tempo.
Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor.
Passam correndo pela Terra, apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados. Nunca chegam, falta-lhes tempo, apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo, falta-lhes mesmo muito tempo.
Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.
Há um engano geral:
Horas curtas de mais, dias curtas de mais, vidas curtas de mais.
Tu que estás fora do tempo, Senhor, sorris ao ver-nos assim a brigar com ele.
E sabes o que fazes.
Não Te enganas quando distribuis o tempo aos homens, a cada um dás o tempo de fazer o que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo, não esbanjar tempo, não matar o tempo,
Pois o tempo é um presente que nos dás.
Presente perecível,
Um presente que não se conserva.
" Michel Quoist em "Poemas para rezar"
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Resiliente, graças a Deus!
Com a última publicação neste blog, “Antes e Depois”, que gerou diversas manifestações de solidariedade e de carinho, e, porque não dizer, de espanto diante do meu comportamento, se reforçou em mim a pergunta que jamais calou: “Como tenho aguentado passar por tantas coisas arrasadoras na vida, sobrevivendo a elas e realmente sentindo vontade de viver?”.
Muitas vezes, vendo pessoas se desintegrarem física e psicologicamente diante de suas tragédias, sinto-me um monstro, o mais insensível dos seres humanos, uma besta irracional. E, é claro, a isso se segue a culpa.
Por outro lado, minha filha, sempre critica minha “calma” ante as agressões da vida, a passividade diante do irremediável, a aceitação sem revolta. É “irritante” como afirma e completa: “a vida não é assim!”. Ela tem lá seus motivos, entendo, mas não é uma escolha ser como sou e isso eu não entendia.
A terapia muito me ajudou no sentido de evitar que no momento de maior dor e confusão psíquica, eu perdesse a razão, mas não respondeu à minha dúvida existencial.
Hoje de madrugada, ouvindo o rádio como sempre o faço, a colunista Inês de Castro entrevistava um médico, acho que psiquiatra, e, de forma objetiva ele esclareceu minhas dúvidas, explicando cientificamente, porque uns se desintegram diante dos grandes traumas e outros resistem, sobrevivem à morte de um filho e continuam a se “arrastar”, foi esse o termo que ele usou se arrastar pela vida, conseguindo trabalhar, amar, sonhar, ter lazer e até ser feliz e fazer outros felizes. Essa capacidade deve-se à “resiliência”, atributo nato ou que pode ser desenvolvido com terapia.
Perdi o sono de uma vez e fui pesquisar sobre o significado desse termo. Encontrei uma publicação, no site de uma clínica de psicologia, que começa assim:
“Os resilientes são aquelas pessoas que passam por dificuldades, como todo mundo, só que a reação deles não é igual a de todo mundo, com eles a coisa é diferente, por mais fortes e traumáticas que sejam as dificuldades, eles superam.
O resiliente é aquele que, mesmo quando perde o emprego, morre o amigo, a esposa pede o divorcio, repete na escola, ainda assim, ele continua lá, firme e forte, ele não se deixa derrubar.”
Depois do programa e de ler a matéria toda, cheguei à conclusão que não sou um monstro e nem faço “o jogo do contente”. Graças a Deus, sou apenas uma resiliente que tem fé!
sexta-feira, 27 de julho de 2012
ANTES E DEPOIS
A exumação dos restos mortais do meu filho ontem, me levou a reler alguns escritos e, em especial este que ora compartilho. Não como vítima, mas como testemunha de que apesar de tudo a vida continua e vale a pena ser vivida.
O corredor é estreito e mal iluminado. A atendente avisa:
- Tem muito sangue, tem certeza que quer olhar?
- Como saber se não olhar?
Ela abre uma porta pintada de branco, muito suja.
Apesar do frio daquela manhã de agosto, lá dentro é abafado. Mal consigo respirar.
A mulher, uma negra simpática e afável, com uma expressão lancinante de piedade no olhar, estende o braço pela porta aberta, tateia e acende uma lâmpada.
- Não acha melhor esperar alguém para acompanhá-la? Não vai se sentir mal?
- Pior é impossível. Preciso ter a certeza já!
Entramos. Ela na frente, eu atrás.
O cômodo mal iluminado, sem janelas, pelo menos se as tinha, não vi, não permite ver além do foco da lâmpada. O foco da lâmpada que ilumina um balcão de concreto aparente, creio eu, sobre o qual repousa um enorme volume preto.
Ela ainda me olha mais uma vez, com aquele olhar que dizia mais que mil palavras, dá um passo à frente, estende a mão sobre o volume e lentamente vai abrindo um zíper que parece não ter fim.
As batidas do meu coração me sufocam e ensurdeço. Meu corpo todo pulsa comandado por uma esperança que minhas entranhas avisam ser vã.
Ela dá um passo para trás para me ceder espaço.
- Pronto, pode olhar.
Não me lembro do que vi, graças a Deus o cérebro dispõe de mecanismos de defesa, que nos imunizam contra a realidade permitindo a preservação da sanidade.
Não lembro, mas sei o que vi e por não acreditar, ainda peço para ver mais uma vez.
As pernas fraquejam. O cheiro de sangue quente me enjoa. Jamais vou esquecer aquele cheiro. Meu corpo estremece e a dor é tanta, que as carnes doem. Doem como se despregassem dos ossos e o sangue não conseguisse passar pelas veias e artérias.
- A senhora está passando mal? Quer alguma coisa, um café forte?
- Não, obrigada.
Respiro fundo, quase sem forças para sugar o ar, levanto a cabeça e com passos firmes vou até o posto policial e faço o que tem que ser feito: informo à autoridade de plantão, que aquele corpo perfurado de balas, ali recolhido como um entulho é meu filho, gerado e criado com extremo amor e arrancado de mim pela maldição das drogas.
Preencho o formulário sem sentir as mãos e saio sem rumo.
Tudo não leva mais de 15 ou 20 minutos, mas são os minutos que dividem minha existência em ANTES e DEPOIS.
Paulo Daniel *20/01/1978
+15/08/1999
terça-feira, 24 de julho de 2012
De volta a Aparecida
Estive em Aparecida do Norte diversas vezes nesta longa estrada da minha vida. Vi as transformações da cidade e do Santuário, cuja obra gigantesca acho, nunca chegará ao término, pois as necessidades e os costumes se renovam e requerem sempre novos adendos.
A primeira vez que lá estive foi em 1964, quando fui com meu noivo, minha mãe e irmã. Uma moça de família não saía só com o namorado, mesmo que fosse para visitar a padroeira. Desse dia lembro-me da longa viagem de ônibus e de visitar a igreja velha.
Guardo a foto oficial da visita, feita pelos fotógrafos de plantão que não perdiam a oportunidade de faturar às custas dos visitantes.
Guardo a foto oficial da visita, feita pelos fotógrafos de plantão que não perdiam a oportunidade de faturar às custas dos visitantes.
Depois voltei à cidade algumas vezes para levar minha sogra, senhora de fé, membro do Apostolado da Oração e muito devota de Nossa Senhora Aparecida, de quem tinha uma bela imagem no oratório em casa e de Santo Antonio, padroeiro da cidade em que viveu a maior parte de sua vida – Americana – SP.
(Obs. As fotos que se seguem são atuais.)
Além da Sala dos Milagres, desorganizada e de aspecto surrealista nessa época, a passarela, recém-inaugurada era o objetivo da minha caminhada por lá, depois da visita à imagem da Senhora, é claro.
Em 2000 lá estive com filho, nora e netos e novamente tudo se me apresentou por um novo ângulo. Aparecida é assim, nunca é a mesma que vimos da última vez.
E agora, nos dias 19, 20, 21 e 22 de julho, voltei à Terra da Mãe Aparecida para o 3º encontro Nacional da Pastoral da Comunicação. Encantei-me com a disposição e organização de todos os setores do Santuário. Uma infraestrutura impecável e perfeita para acolher com aconchego e dignidade a imensa massa de fiéis que para lá se dirigem diariamente.
Embora os trabalhos nos tomassem todo o tempo durante o dia, tentei apreciar ao máximo a magnífica arquitetura da basílica em cada um de seus detalhes e a cada novo ângulo me surpreendia.
Espero voltar muitas vezes para reverenciar a Senhora da Conceição Aparecida, levar-lhe meus agradecimentos e súplicas, mas também para explorar com mais tempo recantos e detalhes da área do santuário e da cidade que escaparam desta vez.
sábado, 14 de julho de 2012
FUÇANDO O BAÚ - II
"Mas sempre foi assim e sempre será, o novo vem e o velho tem que parar"
(Triste Berrante - Sérgio Reis)
Sigo pela calçada do lado ímpar da Tutóia.
Atravesso a Teixeira da Silva e de repente tenho a sensação de que não estou no lugar onde por 17 anos morei. Do quarteirão todo restam apenas o prédio de apartamentos na esquina com a Teixeira da Silva e a pizzaria Estrela do Paraíso, a melhor pizza que já comi, na esquina com a Maria Figueiredo, mas como soube hoje, também será demolida. O resto um grande vazio. Foi tudo abaixo para dar lugar a construção de mais um condomínio.
Do lado da Tutóia, desapareceram a danceteria Shampoo, a floricultura da Beth, um prédio de apartamentos de 6 andares e uma casa comercial, acho que era uma escola de computação ultimamente e do lado da Maria Figueiredo, diversos imóveis particulares.
Foi como se o chão sumisse debaixo dos meus pés. Aos poucos tudo o que eu conhecia naquele pedaço, vai desaparecendo e dando lugar ao novo. Não existe mais a padaria, o bar do Geraldo onde se comia a melhor carne de sol com macaxeira da região, a casa da doutora Vera, minha dentista, bem como todas as outras casas daquele outro quarteirão.
Aos poucos a Rua Tutóia muda de cara e os antigos e conhecidos comerciantes se vão, ficando no lugar de seus estabelecimentos à moda antiga, grandes condomínios fechados de onde só se vêem carros entrando e saindo, como se só de veículos se constituísse a população desta cidade.
No ponto de ônibus, olhei para o edifício onde morei, quase em frente. Esse está lá, do mesmo jeito, do outro lado da rua. Essa visão associada ao grande vazio atrás de mim desestruturou-me. Não pude conter as lágrimas.
Virei-me para não ser observada pelas pessoas em volta e vejo bem perto de mim um senhor muito familiar que também olhava pensativo para aquele vazio. Penso um pouco e, eureka! Mais um encontro nesse dia tão cheio de novidades. É o senhor Luis, o farmacêutico, cuja farmácia também não existe mais.
Mas essa é apenas uma cena do próximo capítulo.
(Triste Berrante - Sérgio Reis)
Sigo pela calçada do lado ímpar da Tutóia.
Atravesso a Teixeira da Silva e de repente tenho a sensação de que não estou no lugar onde por 17 anos morei. Do quarteirão todo restam apenas o prédio de apartamentos na esquina com a Teixeira da Silva e a pizzaria Estrela do Paraíso, a melhor pizza que já comi, na esquina com a Maria Figueiredo, mas como soube hoje, também será demolida. O resto um grande vazio. Foi tudo abaixo para dar lugar a construção de mais um condomínio.
Do lado da Tutóia, desapareceram a danceteria Shampoo, a floricultura da Beth, um prédio de apartamentos de 6 andares e uma casa comercial, acho que era uma escola de computação ultimamente e do lado da Maria Figueiredo, diversos imóveis particulares.
Foi como se o chão sumisse debaixo dos meus pés. Aos poucos tudo o que eu conhecia naquele pedaço, vai desaparecendo e dando lugar ao novo. Não existe mais a padaria, o bar do Geraldo onde se comia a melhor carne de sol com macaxeira da região, a casa da doutora Vera, minha dentista, bem como todas as outras casas daquele outro quarteirão.
Aos poucos a Rua Tutóia muda de cara e os antigos e conhecidos comerciantes se vão, ficando no lugar de seus estabelecimentos à moda antiga, grandes condomínios fechados de onde só se vêem carros entrando e saindo, como se só de veículos se constituísse a população desta cidade.
No ponto de ônibus, olhei para o edifício onde morei, quase em frente. Esse está lá, do mesmo jeito, do outro lado da rua. Essa visão associada ao grande vazio atrás de mim desestruturou-me. Não pude conter as lágrimas.
Virei-me para não ser observada pelas pessoas em volta e vejo bem perto de mim um senhor muito familiar que também olhava pensativo para aquele vazio. Penso um pouco e, eureka! Mais um encontro nesse dia tão cheio de novidades. É o senhor Luis, o farmacêutico, cuja farmácia também não existe mais.
Mas essa é apenas uma cena do próximo capítulo.
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