domingo, 22 de março de 2020

PERU - Compilado de Viagem XIV - Machu Picchu finalmente!

19 de junho de 2016 - É chegado o momento que deveria ser o ápice desta viagem, seu motivo principal e único, meu presente de aniversário: ir a Machu Picchu. Mas agora que o sonho se torna realidade, fica difícil afirmar com certeza, quando e onde foi o ápice desta aventura. Acho que estes transcorridos 9 dias foram ao todo e cada um em si ápice, presente, aventura. E ainda terei mais um dia.

Quando finalmente fechei este pacote para o Mundo Inca, trazia expectativas, emoções, ansiedade, temores. Hoje, depois de escalar todos os degraus da Cidade Sagrada tenho a certeza de que tudo, absolutamente tudo, superou em muito minhas expectativas e me surpreendeu sobremaneira.

Às 6h, com a temperatura em 2ºC, embarcamos em Cuzco,  no trem panorâmico que nos levou a Águas Calientes. Apesar da agitação que nos dominava, acomodamo-nos confortavelmente, quatro em cada mesa, forrada com toalhas de tapeçaria regional e desfrutamos de um café da manhã peruano. Havia também physalis, dispostos em um palito de churrasco, mas fiquei tão encantada que os devorei antes da foto.





Acompanhando o curso do Rio Urubamba, pelo Vale Sagrado, através das amplas janelas laterais e superiores do trem, nosso olhar absorvia deslumbrado, os cenários que se alternavam pelo caminho. Vilarejos, plantações, os Andes, ah, os Andes! Variando de cor de acordo com o tipo de rocha, ou exibindo seus cumes nevados e me fazendo cada vez mais, me planejar para tocar a neve. Mas isso é outra história.



























À medida que avançávamos em direção ao sul, a paisagem muda rapidamente e, de repente, não eram rochas, ou aridez que se via, mas sim, a exuberância da mata, com o verde que se tornava cada vez mais denso. Estávamos na Amazônia peruana - Águas Calientes, onde rapidamente seguimos a guia para embarcar no ônibus que nos levaria à base de Machu Picchu. Ônibus esse, pequeno, como nossos alternativos por aqui. E velho, muito velho.






A estrada de terra que conduz à Cidade Sagrada é estreita, ladeada por precipicios de um lado, em todos os 400m de subida em que contorna a montanha. A passagem de veículos em sentidos opostos só é possível em determinados pontos do caminho. Ao entrarmos no parque, vendo o Rio Urubamba como um filete d`água lá embaixo, cheguei a perguntar a mim mesma, o que é que eu estava fazendo ali?.




Há 2.430 m de altitude e 30ºC de temperatura, carregando a mochila com toda a roupa tirada pelo caminho,  subir os infindáveis e irregulares degraus que levam ao ponto ideal para observar toda a área de Machu Picchu, não é uma tarefa fácil. Mas devagar, em silêncio e boa respiração até eu cheguei lá. E então, sentei no chão e pedi à guia: " faça uma foto, pois ninguém vai acreditar".




E com fotos, muitas fotos, encerro este dia. Palavras são inúteis nestas ocasiões.


















* Em todo solo sagrado no Peru os degraus são irregulares para que as pessoas olhem para o chão e não para os deuses.

* As construções se diferenciam conforme a finalidade : de uso humano com pedras irregulares e rústicas, dedicado ao divino com pedras de formas definidas e sempre polidas.


sábado, 21 de março de 2020

PERU - Compilado de Viagem XIII - Vale Sagrado dos Incas II - Ollantaytambo

(Parei algum tempo este meu compilado de viagem, a vida exigia minha presença e, para estas recordações é preciso alma e coração, afinal a viagem não acaba quando termina, mas continua enquanto suas lembranças nos enlevam. Uma visita à Rosa, passeio em comum, fotos, etc e pronto! Acordei meu coração. Dedico este capítulo a você, Rosa, que não subiu o Ollantaytambo).



18 de junho de 2016 - Difícil encontrar palavras para descrever certos lugares e determinados feitos da humanidade, que nos tocam tanto que excedem à capacidade da linguagem definí-los. Foi assim que me senti naquele início de tarde quente e ensolarada, ao chegarmos ao sopé das ruínas do Ollantaytambo.


Conforme explicava a guia enquanto lentamente galgávamos as escadarias, com a folha de coca debaixo da língua e nos perguntando se chegaríamos  à próxima  plataforma, o local servia de hospedaria e descanso aos incas e seus familiares, por ocasião da peregrinação ao templo do Deus Sol. 
















Construções imensas resistem há séculos a fúria dos terremotos, graças aos encaixes precisos e quase inexplicáveis de suas pedras.









No alto das montanhas, construções de armazéns, onde, graças à baixa temperatura e ao difícil acesso, as colheitas eram preservadas do tempo e de saques.




Em toda parte a "engenharia" meticulosa de uma cultura pre colombiana, que espanta pelo seu desenvolvimento e deixa margens a especulações sobre como essas imensas pedras chegaram aos topos das montanhas.


Era a mais idosa do grupo, 71 anos, mas cheguei ao topo do Ollantaytambo, feliz e grata pelo privilégio de estar ali, ver, tocar e respirar os mesmos ares daquela montanha venerada pelos incas e cobiçada pelos espanhóis. A vontade era permanecer ali e esperar o gelado anoitecer. 



sexta-feira, 20 de março de 2020

Mudanças extremas

Nosso apartamento foi vendido. Ali vivemos 17 anos durante os quais, como todo mundo, tivemos momentos alegres e tristes, mas não como todo mundo, apenas como poucos ou raros, perdemos dois filhos. 

Ali, moravam comigo as lembranças dos risos das pessoas queridas nos almoços de domingo. O suspense, a vibração, os pulos e gritos nos jogos das copas mundiais de futebol assistidas juntos com direito a pipoca e refrigerante. As comemorações dos aniversários, natais, nascimento de netos e seus primeiros passinhos e tantas outras coisas... 

Ali comigo também moravam os fantasmas das preocupações e sofrimentos de anos de noites insones a espera de um milagre que não aconteceu.

O apartamento foi vendido e quisesse eu ou não, tinha que desocupá-lo no prazo de um mês. Desocupá-lo só, não. Desocupá-lo, comprar outro o mais rápido possível, pois o valor que me coube na venda era pequeno e necessário se fazia investi-lo logo antes que se esvaísse.

Portanto, um mês para comprar um imóvel com pouco dinheiro, arrumar as coisas para a mudança e providenciar a mesma, tudo sozinha. 

No dia em que assinei a venda, saí da imobiliária, sem rumo. Chorava tanto que não conseguia ler as placas das ruas da região onde me encontrava, para saber que direção tomar e achar a rua certa para retornar ao trabalho.

Um mês. Durante o dia pesquisava na internet os possíveis imóveis que caberiam dentro do meu orçamento e mais, localizados na região da Paulista – um milagre! À noite, para me ocupar, não pensar e não levar nada antigo, ou pelo menos da forma antiga, comecei a reforma dos móveis. Um antigo bar de canto com dois espelhos, depois de desmontado e serrado tornou-se um espelho de parede e um móvel de canto para a TV. Isso feito se fazia necessário pintar, pois partes antes ocultas, ficaram agora à mostra.

Já que vamos pintar esta peça, vamos pintar tudo. Meus móveis, que em parte foram da minha avó, eram bem escuros, quase pretos. Pintei-os todos de branco semi-fosco acetinado e marmorizei os tampos. Uma trabalheira sem fim, mas valeu a pena, adorei o resultado e não enlouqueci graças a essa terapia ocupacional.



E o mês se passando.  E eu pensando em todas as possibilidades de para onde ir se não conseguisse comprar um imóvel. Alugar? De jeito nenhum! Quem aluga paga o que não adquire e continua sem nada. Ir para casa dos pais? Das irmãs? Dos filhos? Possibilidades reais, mas não ideais...

Certo dia ao contatar uma imobiliária sobre um imóvel numa simpática ruazinha, que eu já conhecia porque uma amiga morava lá, a corretora me disse que aquele imóvel já fora vendido, mas que tinha um outro que eu iria gostar.  Ficava muito melhor localizado, próximo de tudo, inclusive com metrô na porta. Marcamos a visita para o dia seguinte.

Após a reforma e pintura dos móveis, comecei o encaixotamento, em caixas de papelão que eu conseguia num supermercado, uma beleza de supermercado, do qual eu iria sentir a falta. Encaixotava por assunto e etiquetava as caixas numerando-as e relatando o que continham, numa organização que não era própria do meu temperamento, mas sim do meu atual estado neurótico. 

No dia marcado fomos ao apartamento. Um prédio antigo, grande, bem conservado. Um lindo jardim em toda frente e corredores e escadas cheirando à limpeza, perfumados. Subimos, era no primeiro andar. Naquele dia, fazia 3 anos que meu caçula falecera. Estava emocionalmente abalada, o que somado à tarde nublada e chuvosa mais a falta de iluminação, pois a luz estava desligada, fazia com que o ambiente me parecesse sombrio e triste, mas o apartamento era exatamente o que eu estava procurando e o preço por incrível que pareça do tamanho do meu orçamento. Estou sonhando, pensei. 

Nunca até então tomara uma decisão importante na vida sozinha e muito menos fizera algum negócio, além de feira e supermercado. 

Pedi a minha filha que fosse até lá comigo para dar uma opinião, ela sim, uma empresária, decidida e segura. "A senhora ainda não comprou? O que está esperando?" Disse ao abrir a porta. Vamos já até a imobiliária. E assim fizemos. Nossa proposta foi aceita e agora só faltavam alguns alvarás, pois o imóvel fazia parte de um inventário.

O mês passando, minhas coisas todas encaixotadas. Sabendo o tamanho do novo apartamento, separei o que não caberia e enviei a uma entidade assistencial. Comprei alguns objetos novos, contratei uma empresa de mudanças e os alvarás não saíam. Deveria me mudar até o dia 29 de setembro de 2002.

No dia 26, o dono do apartamento liga e diz que, se eu concordasse, ele como procurador dos herdeiros, me daria uma autorização para ocupar o imóvel em caráter provisório e faríamos um contrato particular de compra e venda. Claro que concordei. Aquele senhor, que eu ainda não conhecia, me inspirava confiança. Entreguei nas mãos de Deus e no dia 27 lá estávamos na imobiliária assinando os papéis. 

Quando aquele simpático dentista e seu filho me entregaram aquela chave, dois dias antes do meu prazo, me senti uma nova pessoa. Saí da imobiliária, saltitando em direção ao MEU apartamento. O dia me parecia mais ensolarado do que quando saí de casa, o céu mais azul, as pessoas mais bonitas. 

Entrei, tranquei a porta e passei a mão em todas as paredes para acreditar que não era um sonho. Sentei no chão e chorei. Emoção? Alívio? Gratidão? Acho que um misto de tudo isso e mais um pouco.

Corri para casa, providenciei os materiais, voltei e fiz uma boa faxina. 

No dia seguinte, um dia antes do prazo, às 8 horas da manhã começou minha mudança.

Quando tudo já estava no caminhão, restando apenas minha cachorrinha, eu e a mala de documentos, enquanto me despedia daquelas velhas paredes que tanto viram e ouviram, ouvi um ruído estarrecedor vindo da cozinha. Parecia que algo desmoronava. Assustada, corri para lá e fiquei aterrorizada ao ver que todo o piso de lajotas grandes se soltara e as lajotas levantavam-se em ângulos por todo o espaço. Um calafrio percorreu meu corpo e chorando ainda pisei sobre as lajotas próximas da porta para que ela pudesse ser fechada. Passei a chave e não olhei para trás.

Ao contrário do que eu pensava, comigo seguiram todas as lembranças boas e más e os fantasmas meus companheiros que agora já não me assustam tanto.

Com calma, um bom tempo depois, entendi que aquelas chaves, recebidas com tanta apreensão, haviam feito de mim uma outra pessoa. Uma pessoa capaz de existir sozinha.


Deixei a Agatha, minha fiel cadelinha, no pet shop para um banho e segui rumo ao novo apartamento, em tempo de chegar antes do caminhão de mudança. Abri portas e janelas para receber a gloriosa luz solar daquele sábado histórico. Testei as torneiras e notei que não havia água quente. Informei ao zelador que imediatamente veio e apenas abrindo um registro resolveu o problema.

Depois de uma longa espera eis que chega o ajudante do motorista e me informa que minha mudança havia ido para o depósito da empresa, pois antes das 20h não era permitido o estacionamento de caminhões naquela via, então, iriam transferir meus pertences para peruas e assim, entrar e descarregar diretamente na garagem. Comecei a me preocupar...

Chega a primeira remessa e a mesa da sala de jantar não passa pelo vão da porta. A mesa não é desmontável. Necessário se faz retirar a folha da porta para aumentar o vão e assim passar a mesa. Deu certo. Ufa!

Começam a chegar as caixas. O motorista carregava o elevador na garagem e o ajudante retirava as caixas no meu andar e levava para dentro. Expliquei: “As caixas estão etiquetadas, cozinha, sala, quarto, para facilitar a distribuição”. Ele me olha, coloca a caixa na minha frente e pergunta: “Esta aqui, vai pra onde, dona? Não sei ler”. Lá se ia toda minha organização por água abaixo. 

Tinha que segurar a cachorra, pois a essa altura ela já chegara do banho e tentava desesperadamente fugir dali, e ainda ficar lendo caixa por caixa. Desisti. Pedi que colocassem tudo na sala e pronto!

Descarregada a mudança, tudo em ordem, nada quebrado, encerro meu dia lá pelas 22 h. 

Como sempre fazia minhas refeições na empresa, e para mudar descongelara a geladeira e o freezer e me desfizera de quase tudo que era comestível, me dei conta que tinha água, açúcar, bolachas salgadas, ração de cachorro, pó de café e arroz, mas o gás ainda não estava ligado. Nem me passou pela cabeça, pedir à portaria, que solicitasse a entrega de alguma refeição. Ainda estava em estado de choque com a mudança. Comi as bolachas com água e açúcar, enchi a banheira e ali, envolvida por aquela deliciosa água quente, agradeci a Deus e comecei a sentir que tudo valera a pena.

Mas a Agatha não pensava assim. Tudo o que fazia era latir, uivar, chorar e arranhar a porta tentando sair. Para ela ali não era o seu lar . Queria ir embora de qualquer jeito. Só se calava quando eu sentava a seu lado. Naquela noite, dormiu na minha cama.

Domingo pela manhã, tentei sair para ir ao supermercado, mas ela gritava tanto que voltei dali mesmo, do elevador. Levá-la e amarrá-la na entrada do supermercado, nem pensar, ela faria um escândalo e eu não tenho nervos de aço para isso. Acho que o sossego das pessoas deve ser sempre respeitado. 

Coloquei-a na coleira e pensei “há de existir algum boteco, onde se possa tomar um café da manhã acompanhada de cachorro”. Andei por dois quarteirões desertos e todos os bares estavam fechados. Normalmente funcionam de segunda a sexta, pois fornecem refeições do tipo PF. 

Seguindo por uma rua mais sofisticada, deparo-me com um aconchegante estabelecimento, tipo café, bar e restaurante, com mesas nas partes interna e externa. Olho as mesinhas do lado de fora, um cheirinho bom de café me belisca o estômago. Arrisco perguntar a uma simpática garçonete que ainda trabalha lá, se poderia sentar-me ali e tomar um café com minha cachorra. A resposta foi afirmativa e com a Agatha debaixo da cadeira, tomei um maravilhoso café com leite mais pão com queijo frio, do jeitinho que eu gosto. E a Agatha, devido à ansiedade e sem que eu percebesse, comeu todas as flores da jardineira que havia ali ao lado. Desculpas pedidas e aceitas, fecho a conta e agradeço.

Todas as vezes que passo por ali, lembro-me daquele dia, cumprimento a garçonete e de vez em quando tomo um cafezinho expresso.

Segunda-feira. Preciso trabalhar. Vou e deixo o bicho em casa. Trabalho meio expediente – a patroa é a filha – quando chego, ouço os latidos lá da portaria. Olho para os porteiros: as carinhas boas como sempre.

Terça-feira. Resolvo deixar o bicho no quarto, com todo o conforto, água, ração, biscoitos, edredom no chão, janela aberta e porta fechada. Pelo menos assim não se ouviria os latidos do lado de fora, nas áreas comuns do prédio. Menos mal. Cheguei a pensar que o problema estava resolvido e que um dia ela acostumaria com o novo lar. Que ilusão!

Nesse dia, trabalhei o período todo e à tarde, ao chegar ao prédio as carinhas dos funcionários já não eram tão boas assim. Uma moradora ameaçara ligar para a Sociedade Protetora dos Animais e me denunciar. Uau! O que fazer?

Ao abrir a porta da sala, deparo-me com ela, à minha espera, exausta, arfando o peito, com a língua roxa, toda babada e ensangüentada. A casa uma bagunça, cacos de madeira espalhados pelo chão e um buraco enorme, aberto na porta do quarto, feito por aquela frágil cachorrinha que assim se libertou do cativeiro e já se preparava para fazer outro na porta da sala que já estava toda arranhada.  Fotografei, jamais alguém acreditaria se eu contasse.


Foi a gota d´água. A partir desse dia minha mãe passou a ficar em casa de segunda a sexta para eu poder trabalhar. Alguns acharão exagero os meus mimos com a Agatha, outros até poderão sugerir, como já o fizeram que me livrasse dela, mas apesar dos pesares e acima de todos os direitos dos animais, está a minha ligação com esta beagle que não assimilou a mudança e que é a única coisa que me restou de um filho que se foi, além da eterna saudade. 


E, se alguma fraqueza restou-me depois de tudo o que passei, é meu amor por essa criatura inocente, que me ama e tudo o que faz é estar sempre alerta para não me perder de vista. (Escrito em algum dia de 2005).
                                                                                                                                       

domingo, 15 de março de 2020

O surto de meningite em São Paulo



Na década de 70 lecionava na EEPG Antônio Olegário dos Santos Cardoso, na zona rural de Mogi das Cruzes – SP. Uma escola construída pela comunidade nipônica do Bairro da Porteira Preta, mais conhecido como Adachi.  Eram 5 salas de aula, ensino fundamental I, conforme a denominação atual, com cerca de 35 alunos por sala.

As notícias do surto de meningite que grassava em São Paulo colocavam a comunidade em alerta e aumentava a responsabilidade da escola, único elo de ligação com as famílias ali na roça.  Como agora, com o COVID-19, as orientações eram sobre os hábitos de higiene e cuidado nos contatos pessoais. 

Mas havia algo mais naquela situação: era recomendado a todos que após as aulas, ao chegar em casa fizessem gargarejo com água e sal. Também, foi recomendado pelas autoridades sanitárias da cidade que todos portassem uma pedra de cânfora,  o que fazíamos colocando-a numa espécie de bolsinha de pano pendurada ao pescoço com um cordão.

Certo dia um aluno da minha classe – 2ª série - pôs-se a chorar. Reclamava de fortes dores de cabeça e náuseas. Queimava em febre e estava cambaleante.  Retirei-o da sala, comuniquei ao diretor da escola, que me autorizou a levar a criança imediatamente à Santa Casa, enquanto a família seria avisada, no distante sítio em que morava.

Na Santa Casa fomos imediatamente isolados e atendidos. Exames de praxe e o temido exame de liquor das meninges, que tive que acompanhar, como responsável pela criança no momento. O menino estava tão mal que nem gemeu. Os pais chegaram e fui para casa assustada. Três filhos, marido e empregada me aguardavam e não tinha como avisá-los para ficarem longe de mim quando chegasse. O que fazer?

Do portão, chamei a empregada e de longe pedi que levasse as crianças para o  quintal e ficassem bem longe de mim. Segui direto para o banho, afundei as roupas num balde com água e Lysoform (todos tinham em casa naquela época). Fiz o gargarejo com salmoura e rezei muito.

No dia seguinte, o pai do menino foi à escola para comunicar que o exame dera positivo para meningite e que ele estava internado no Hospital Emilio Ribas em São Paulo.  Felizmente se recuperou sem sequelas e foi nosso único caso.

Quando a vacina chegou, todos na escola foram vacinados e foi a primeira vez que vimos uma vacinação feita com pistolas. 

Ainda tenho meu porta cânfora e acho que, por via das dúvidas, vou ativá-lo.

sábado, 14 de março de 2020

As chuvas, sempre as chuvas....


Andei ausente do blog,  nada postei em 2019. Muitos afazeres e passeios para lamber as crias. Bom. Muito bom. Hoje deu vontade de passar por aqui. Então, ainda sob o impacto das tragédias ocasionadas pelas chuvas de fevereiro, me veio a lembrança de que por aqui, também nós fomos vítimas de enchentes, sem tragédias pessoais, graças a Deus.

Novembro, 1961.O dia não lembro. Estudava no IE Prof Alberto Conte e fomos em excursão ao Museu do Ipiranga. Um dia especial.

Na volta do colégio para casa, o bonde Santo Amaro – Praça João Mendes parou inexplicavelmente na altura da bifurcação Adolfo Pinheiro com Vereador José Diniz (acho que não tinha esse nome, pois o José Diniz, Zé da Farmácia, era vivo, mas essa é outra história).

A tarde estava quente e ensolarada. Sem energia elétrica, o jeito era caminhar acompanhando os trilhos. Ao chegar na Parada Petrópolis, observei um pouco adiante, uma movimentação inusitada. Olhando barranco abaixo, não vi a vegetação das várzeas do Córrego do Cordeiro. Tudo estava alagado. Não chovia e o sol brilhava intensamente, fazendo exalar daquela água, um odor desagradável.

Corri. Quando cheguei, já o quintal, o galinheiro e a horta estavam submersos. Meu pai, num corre, corre, salvava as galinhas e as lebres.

Troquei-me e ao descer a escada deparei-me com aquela água barrenta e fétida no quarto degrau e ali à frente, cobrinhas d’água e ratos nadavam entre os dejetos, na sala de jantar, num “salve-se quem puder!” Medo. Nojo. Desespero.Era mister ajudar no rescaldo de nossos pertences.

O Córrego do Cordeiro, afluente do Pinheiros, tinha sua nascente na região de Diadema, onde uma tromba d’água arrasara tudo. Sem solo poroso para absorção e com acúmulo de lixo sob a ponte da linha do bonde, a água escoou pelo leito do córrego, invadindo as várzeas. Não se parecia em nada com o córrego, onde há poucos anos eu brincava e pescava lambaris. A enchente se fez, sob o sol daquela tarde. Atingiu, dentro de casa, aproximadamente um metro e meio.

Em 1966, outra, muito maior, aconteceu numa manhã de domingo, no mês de março. Chovia desde a tarde de sábado, uma chuva contínua e pesada. O nível do Pinheiros subiu e a água não escoou, subindo assustadoramente.

Eu morava então na Rua da Prata, no piso superior de um predinho de dois andares. Grávida, ilhada no minúsculo apartamento em companhia das vizinhas que para lá acorreram com os filhos, tentava amenizar a situação servindo cafezinhos.

A água atingiu dois metros de altura deixando as casas térreas submersas até o topo das janelas. Apenas dois degraus nos separavam da água.

Os homens nadando, iam de casa em casa verificando se havia alguém preso, enquanto o socorro dos bombeiros não chegava. Cenas comuns na mídia, hoje em dia. Heróis anônimos, que talvez por força da graça obtida por suas ações, não adoeceram em decorrência delas.

Outras enchentes assolaram a Vila Carmen durante anos, fazendo com que muitas famílias mudassem dali, deixando os amigos e o bairro onde criaram seus filhos. O Ângelo Antonio foi embora bem como o Antonio Marcos e a Vanusa.

Passando pelas ruas da Prata, do Rubi e de outros metais preciosos, encontramos casas com comportas nos portões, pois ainda hoje, apesar da canalização do Córrego do Cordeiro ocorrem enchentes, que embora com menor intensidade, prejudicam o trânsito e o comércio na região do Shopping Morumbi, Roque Petroni e Vicente Rao e deixam os moradores de toda aquela área em sobressalto toda vez que o céu escurece ou se ouve notícias de chuvas fortes em Diadema, Jabaquara e região.


Residência na Rua Meson - travessa da Prof. Vicente Rao




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Lições de meu pai



Enquanto aplicava a seladora no muro da frente, que finalmente meu primo Luizinho e eu deixamos a meu gosto,  pensava como nossos pais nos ensinaram coisas práticas – o pai dele e o meu eram irmãos. 

”Não enfie o cabo do pincel na tinta, só a ponta e retire o excesso”. Era sexta feira santa e eu devia ter uns 10 anos. Pintávamos as ferragens das janelas de casa. Lembro que estava com dor de dente, mas dentista? Só na segunda feira. “Forre o chão, pra não sujar de tinta e proteja o vidro com uma folha de papel para não ter que limpar depois”.

Em tudo era assim, um trabalho: uma aula de técnicas. E sabem? Isso fica para sempre. “lava e enxada e deixa secar bem antes de guardar para não enferrujar”. “ Guarda tudo no lugar de onde tirou”. “ Pra cada trabalho existe uma ferramenta própria: faca não é chave de fenda”.

A oficina dele, em casa, era  organizada. Tinha suportes, caixinhas, vasilhas  pra acomodar tudo e um painel para as ferramentas. Conservo muita coisa, que facilita meu trabalho e me faz sentir sua presença.

“Nunca deixe a mão na frente da ferramenta e proteja os olhos”.

Lições que permaneceram como todas as outras sobre ética, moral e princípios estas, que todos os pais ensinam (ou deveriam ensinar) aos filhos. Não gosto de comparações, mas acho que hoje a tecnologia rouba dos pais e das crianças esses momentos da vida que a mim tanto bem  ainda fazem

Ah ! “Depois da pintura,  limpe bem os pincéis e guarde. Dinheiro não nasce em árvore!”.